O segredo das cavernas de Maiorca

Estalactites podem ajudar a confirmar teoria que tenta explicar o que[br]determina a periodicidade dos avanços e retrocessos das geleiras do Polo Norte

Fernando Reinach, fernando@reinach.com, O Estadao de S.Paulo

18 de março de 2010 | 00h00

Durante os últimos 2 milhões de anos ocorreram pelo menos 20 períodos em que as geleiras do Polo Norte avançaram sobre a Europa e a América do Norte. Após cada "era do gelo", as geleiras retrocederam. A última "era do gelo" foi presenciada por nossos ancestrais, que, apesar de ainda não terem inventado a agricultura, já habitavam a Europa. Que os ciclos existem, ninguém duvida, mas o que determina sua periodicidade é um mistério. Parte da resposta foi encontrada em uma caverna na Ilha de Maiorca.

Em 1941, Milutin Milankovic, um engenheiro sérvio, propôs que esses ciclos poderiam ser explicados por alterações na posição da Terra em relação ao Sol. Alterações periódicas na inclinação do eixo de rotação da Terra e na sua orientação em relação ao Sol aumentariam a incidência de luz solar sobre o Polo Norte, causando a elevação da temperatura e os degelos. Em seguida, as mesmas alterações, ao diminuírem a incidência de luz solar sobre o polo, resultariam no aumento na quantidade de gelo. Esse modelo prevê ciclos de expansão e retração das geleiras que se repetiriam com uma frequência de aproximadamente 23 mil, 41 mil e 100 mil anos.

O problema é determinar se as geleiras realmente avançaram e retrocederam obedecendo a esses ciclos.

Descobrir a quantidade de gelo que estava presente no Polo Norte em cada época do passado é difícil. Por isso, os cientistas preferem medir a altura dos mares. Quando o Polo Norte degela, os mares sobem. Quando a quantidade de gelo acumulada aumenta, o nível do mar abaixa.

Hoje, sabemos que o gelo acumulado na Groenlândia, se totalmente derretido, aumentaria o nível dos oceanos em aproximadamente um metro. No passado, o mar já desceu até 130 metros abaixo do nível atual e subiu dezenas de metros acima do que observamos hoje. Se fosse possível descobrir uma maneira de determinar qual era o nível do mar em épocas precisas do passado, poderíamos determinar se o mecanismo proposto por Milutin Milankovic é correto.

Estalactites. Na Ilha de Maiorca, Espanha, foram descobertas cavernas formadas há milhões de anos, com enormes estalactites. Como essas cavernas estão a apenas 250 metros do mar, têm ligação com o Mediterrâneo e a água no seu interior sobe e desce lentamente, acompanhando as marés e as flutuações milenares no nível dos oceanos.

Os cientistas descobriram que as estalactites presentes na caverna, em vez de lisas, possuem engrossamentos, como nódulos. Investigando sua origem, descobriram que esses nódulos se formam exatamente na altura em que a água do mar banha a estalactite. O material acumulado nos nódulos banhados atualmente pelo mar foi coletado. Medindo o conteúdo de isótopos radioativos presentes no material, foi possível descobrir que eles haviam se formado nos últimos séculos.

Animados, os cientistas procuraram nódulos semelhantes na parte mais alta da caverna, que hoje está fora da água, e mediram a quantidade de isótopos presentes. Isso permitiu determinar que os nódulos a 1,5 metro acima do nível atual do mar haviam se formado há 81 mil anos e que os ainda mais acima, localizados a 2,6 metros acima do nível atual do mar, tinham se formado há 120 mil anos.

Dessa maneira, eles puderam fazer um gráfico relacionando a idade dos nódulos e o nível do mar. O incrível é que o gráfico corresponde exatamente ao predito por Milankovic em 1941.

Se esses dados forem confirmados em outras cavernas, teremos certeza de que a quantidade de sol que bate no Polo Norte é o que determina o avanço ou o retrocesso das geleiras.

Mas fica uma dúvida: será que as alterações causadas pelo homem, como o recente aquecimento da atmosfera provocado pela emissão de gás carbônico, são suficientes para alterar esse ciclo?

BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: SEA-LEVEL

HIGHSTAND 81,000 YEARS AGO IN MALLORCA. SCIENCE, VOL. 327, PÁG. 860D

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