Luiz Horta/AE
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O sobrinho do Romanée-Conti

Aubert de Villaine é um dos mais visíveis donos do Domaine de la Romanée-Conti, talvez a mais famosa propriedade da Borgonha, de vinhos muito raros. A sede do Romanée não é um castelo, apenas um endereço em um painel de campainha na Rue du Temps Perdus (o que há em um nome!). Passei por lá e fotografei.

Luiz Horta,

01 Agosto 2013 | 07h46

Mas meu destino era o domaine privado de Monsieur e de sua mulher americana, Pamela, o Domaine A. & P. de Villaine, em Bouzeron, onde reina uma uva menos notável que a Chardonnay, a branca Aligoté, e a Pinot Noir. Esse projeto pessoal de Aubert de Villaine, situado em local discreto como ele, uma casa com jardim florido, é tocado pelo sobrinho entusiasmado, que eu já tinha encontrado em São Paulo anos atrás na degustação da Renaissance des Appelations, de vinhos biodinâmicos.

Pierre de Benoist de Gentissart. Com tamanho nome pomposo, é o que se pode chamar "uma figura". Chegou com ar rubicundo, uma cuspideira na mão e já avisando: "Desculpem, só vou poder ficar 15 minutos porque tenho uma doença para atender. Doença em um vinhedo de amigos". A visita durou mais de uma hora, à medida que os vinhos apareciam e ele se animava mais e mais. Espero que o vinhedo do amigo não tenha sofrido com esse atraso.

Sua segunda frase não foi menos pontiaguda: "Que dia lindo, radiante, dia em que as flores tomam consciência de que serão uvas!". E falou sério.

Relembrei de nosso encontro em São Paulo e notei a mesma rejeição que está crescendo ao título de biô entre os produtores. Os franceses parecem cansados de rótulos, estão entrando em uma fase de abandonar os radicalismos agrícolas e se ocupando de fazer bons vinhos: "A cultura do vinho na França é muito antiga, muito anterior às teorias da biodinâmica", explicou.

O moço não deixa barato, o que os ingleses chamam tongue in cheek, linguinha afiada: "Estou interessado na cultura biológica que é ancestral, a do gesto". Fiz cara de não entender e ele detalhou: "Fazemos montes de coisas de diversas formas modernas, terminamos repetindo os mesmos gestos. Não sou antitecnologia, apenas procuro ver os gestos que são os mesmos na feitura do vinho. Rudolf Steiner já é racional demais, gosto da marca humana no vinho, com um bom traço selvagem, porque vinho é irracional", disse. "Sigo Masanobu Fukuoka, que me ensinou a prestar atenção, olhar bem antes de agir, e depois aprendi a repetir gestos."

Fomos degustar e ele chamou o jardineiro, que todo esse tempo estava agachado cuidando minuciosamente de 1 metro quadrado de terra. Na verdade, apresentados, o jardineiro era um jovem subchef de um restaurante de Chicago (não quiseram dizer qual, eu apostei no Alinea, de Grant Achatz), que veio, voluntariamente, aprender sobre vinhos. Pierre colocou-o para mexer naquele jardim e lá ele vai ficar por longo tempo, os tais gestos.

"Meu tio decidiu que íamos recuperar a qualidade e o prestígio da Aligoté." A uva era muito plantada antes, mas a Chardonnay quase acabou com ela, que ficou reduzida a uva para fazer vinhos de coquetéis. Por isso, o primeiro vinho que mostrou e com mais orgulho foi o Aligoté 2011 (já tinha provado outras safras e ele foi motivo de uma coluna). É cítrico, delicado, com traço de iodo e marinho, com corpo e acidez equilibrada. Um vinhaço simples, se cabe dizer. "Usamos a Aligoté Dorée, o resto é Vert, que é menos apta a mostrar o terroir." Animou-se quando comentei que tinha bebido um Aligoté do Mar Negro. "Sim, a uva chegou até lá. Os vegetais vão nos enterrar, durarão muito mais que nós, vão nos cobrir, nós vamos alimentá-los."

Esqueceu do compromisso e começou a tirar vinhos das barricas com uma pipeta. Chardonnay 2012, Ruilly, Santenay, o Mercurey 2012, soberbo, que admirei e elogiei. "Quero fazer vinhos estúpidos, que apelem não ao intelecto e sim ao prazer", explicou. Conseguiu. E os dois que para mim foram os melhores, dois Pinots Noirs Bouzeron, de dois vinhedos: La Fortune 2012 e Digoine 2012. O La Fortune é expressivo, aroma de pétalas de flores meio murchas, tem algo ferruginoso, que sempre me lembra sangue nos Pinots. Ele comentou: "Este vinho está em um momento que acho lindo, quando a uva já fermentada vai se acostumando a ser fruta morta, porque o vinho é a fruta já morta, é como uma criança descobrindo que mudou de estado". Entendi, gostei da imagem, pensei em uma natureza morta e no cheiro de flores fenescentes que senti. O outro, o Digoine, foi um dos belos vinhos que bebi na Borgonha. "Preste atenção, o mesmo solo, o mesmo homem, os mesmos pássaros, a mesma raposa passando, e outro vinho. O primeiro era um recém-nascido feliz, este é um adolescente problemático." Ele mesmo riu da metáfora. Ambos eram soberbos, alta pinoticidade, complexos, mesmo que tão jovens, e longos e promissores. Comprei depois em Beaune duas garrafas do Digoine 2010, igualmente perfeito.

Pena que os vinhos A. & P. De Villaine estejam sem importador no Brasil, pois têm essas virtudes encantatórias dos Romanées com rusticidade e pureza e com preço normal.

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