O sortudo e intrépido Cabeza de Vaca

Lendário aventureiro espanhol, presença misteriosa nos livros de História, tem sua saga incrível recontada por Paulo Markun

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

25 de novembro de 2009 | 00h00

O 12º livro do escritor e jornalista Paulo Markun trata de um personagem meio lenda meio fato histórico, o aventureiro e fidalgo espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca, que viveu possivelmente entre 1485 e 1559 e cujo currículo inclui as seguintes credenciais: soldado, náufrago, escravo, comerciante, camareiro, curandeiro, governador, prisioneiro, escritor. Foi tesoureiro real na Flórida, nos Estados Unidos, e tornou-se o primeiro governador de Santa Catarina.

O misterioso Cabeza de Vaca é descrito por Markun (atual presidente da Fundação Padre Anchieta) como tão intrépido, ousado e persistente quanto Colombo, Pizarro ou Fernão de Magalhães. A Incrível Trajetória de Dom Álvar Núñez Cabeza de Vaca pelas Américas e Revelações Inéditas sobre Seu Julgamento será lançado hoje, com a presença do autor, na Saraiva Megastore do Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo.

Em Aguirre, A Cólera de Deus, de Werner Herzog, filme de 1972, o cineasta narra a lendária expedição de Pizarro em busca de El Dorado. Herzog se detém menos no aspecto histórico e busca evidenciar os efeitos mentais e emocionais sofridos por homens em situações-limite. O sr. busca um mote filosófico nos magníficos fracassos do seu biografado?

Não sou filósofo, nem acadêmico. Procurei apenas cotejar as afirmações do próprio Cabeza de Vaca e as de seu secretário particular e ghost-writer, Pero Hernández, com declarações de testemunhas ouvidas nos vários processos e probanzas (interrogatórios encomendados com a intenção de se provar determinada tese). Aqui e acolá, acrescentei raciocínios de pesquisadores do tema e eles se dividem em dois times, um a favor, outro contra Cabeza de Vaca. Procurei fugir desse jogo.

Sobre Cabeza de Vaca, García Márquez, Nobel de Literatura de 1982, disse que "aqui nas Américas os artistas não precisam inventar muito; ao contrário, o desafio é tornar verossímil a realidade". Mas pode-se confiar nos relatos de um homem que inventou quatro versões diferentes de suas aventuras?

Não existem muitas fontes disponíveis mais de quatro séculos depois. Há os documentos dos processos , e os apresentados pelos inimigos de Cabeza de Vaca são em maior número. Existem também pesquisas arqueológicas e antropológicas que confirmam muitas passagens dos Naufrágios, o livro que Cabeza de Vaca escreveu sobre suas experiências na América do Norte. Sua pergunta inclui a expressão "inventou". Pergunto: como podemos saber se ele inventou pura e simplesmente suas aventuras na América do Norte? Acho que como muitos de nós, jornalistas, ele deu é um acabamento para sua história. Certamente, para valorizar seus feitos. No caso dos Comentários, que tratam de sua passagem pela América do Sul, Pero Hernández, ou Cabeza de Vaca por trás do secretário particular, exagerou na dose.

Muitas versões sempre tingem as histórias dos grandes aventureiros do século 16. O sr. acredita que Cabeza de Vaca foi uma espécie de Forrest Gump das grandes navegações?

Não sei se esse tipo de metáfora procede. Quando comecei a pesquisa, acreditava que Cabeza de Vaca era, como diz Henry Miller, "um dos poucos homens deste grande hemisfério que agiu sempre sob estes princípios de fé" (caridade, amor, tolerância e indulgência, humildade, perdão, relaciona o autor de Sexus, Nexus, Plexus e Trópico de Câncer). Quase 10 anos depois, sei um pouco mais sobre ele, e tenho menos crenças.

Personagens secundários dão cor à epopéia, como Bofes de Bagaço, o navegador português João Dias de Solis, comido por índios no estuário dos Rios Uruguai e Paraná. O sr. teve de "escavá-los" ou eles naturalmente surgiram durante a investigação?

Os nomes citados são de personagens relevantes na história da conquista do Rio da Prata e são encontrados facilmente na literatura. Muito mais interessantes me parecem o banqueiro Jakob Fugger, Cristovão de Haro, o cristão novo que circulou entre Espanha e Portugal, como investidor ou testa de ferro de grandes financistas ou Gonçalo da Costa, piloto que viajou diversas vezes para a região e de quem quase nada sabemos. Sem falar no duque mentecapto e impotente a quem Cabeza de Vaca serviu como camareiro.

Em 10 anos, o sr. conta que "mudou muito a avaliação do autor em relação a Cabeza de Vaca", cujos planos para outro modelo de conquista mais humano teriam sido destruídos pela ganância dos subordinados. Chegou mesmo a acreditar que Cabeza de Vaca havia construído em sua mente uma espécie de utopia particular?

Cabeza de Vaca viveu na Espanha influenciada pelas ideias do frei Bartolomé de las Casas. Supõe-se, até, que eles tenham se encontrado. Há mais de uma tese de doutorado, que custou anos de pesquisa a professores com titulação respeitável, apontando nessa direção. No outro campo, existem estudiosos em menor número, mas não menos titulados, para quem Cabeza de Vaca foi um enganador. Costumo seguir uma regrinha elementar do jornalismo: antes de concluir, investigue.

Ele foi um dos primeiros autores bem-sucedidos das sagas das navegações?

Não. O livro dele vendeu pouco e passou décadas fora de catálogo, se é que a expressão se aplica ao século 16. Best-sellers foram Colombo, Marco Polo e Américo Vespúcio.

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