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O tédio e a maconha

Uma ideia antiga, já abandonada pelos especialistas, é que a maconha seria uma “porta de entrada” para outras drogas. Mas a maioria dos jovens que experimentam maconha fica apenas nela mesmo. Um novo estudo americano, divulgado na última semana, no entanto, mostra que para uma parte dos adolescentes, principalmente aqueles mais entediados, ela pode se tornar um problema mais sério.

Jairo Bouer, O Estado de S. Paulo

05 Julho 2015 | 03h00

Cientistas da Universidade de Nova York avaliaram dados de cerca de 15 mil alunos, de 17 a 18 anos, de 130 escolas públicas e privadas de 48 Estados americanos. Os resultados foram publicados no American Journal of Drugs and Alcohol Abuse, e noticiados pelo jornal britânico Daily Mail.

Dois terços dos estudantes que experimentam maconha não progrediram para outras substâncias ilícitas. Mas aqueles que buscavam a droga para aliviar o tédio correram mais esse risco. Ainda segundo a pesquisa, os motivos mais frequentes que levaram estudantes a experimentar drogas foram: viver uma nova experiência, aliviar o tédio ou alcançar novas “percepções”. 

Os dados fazem parte do relatório anual Monitorando o Futuro e foram focados nos jovens que disseram ter usado maconha nos últimos 12 meses. Outras oito drogas ilícitas foram avaliadas, entre elas, LSD, heroína, crack, cocaína, anfetaminas e estimulantes, entre outros alucinógenos.

Uma análise mais demorada das causas que levaram o jovem a usar maconha e a frequência desse uso revelou alguns pontos interessantes. Os que usaram apenas para “viver uma nova experiência” tiveram um risco menor de usar outras substâncias ilícitas. Da mesma forma, o consumo eventual de maconha não se relacionou com o uso de outras drogas. 

Mas os especialistas alertam que esses resultados não servem de base para afirmar que fumar maconha de vez em quando é uma forma de prevenir, no futuro, o contato com as demais drogas. Para eles, a principal conclusão do estudo é que apenas uma parte dos usuários de maconha pode estar sob maior risco de evoluir para o uso de outras substâncias e que seria importante pensar estratégias específicas de prevenção para essa população como, por exemplo, diminuir o tédio do jovem, investindo em alternativas de lazer, cultura e esporte, que ocupem uma parte do seu tempo ocioso.

Droga mais usada. Bom lembrar que a maconha é a droga ilícita mais consumida nos EUA e em boa parte do mundo, incluindo o Brasil. Um levantamento recente, a Pesquisa Nacional de Uso de Drogas e Saúde, divulgada no início de junho pelo Nida (National Institute on Drug Abuse), apontou que cerca de 2,8 milhões de pessoas experimentaram drogas pela primeira vez nos EUA em 2013; 54% tinham menos de 18 anos e, para 70% dos iniciantes, a maconha foi a droga de escolha. Outro dado mostra que um em cada dois estudantes de 17 a 18 anos já experimentou maconha. 

Desde 2014, a venda de maconha para uso recreativo está liberada para quem tem mais de 21 anos em alguns Estados americanos, como Colorado e Washington. Ainda não se sabe se retirar a droga da ilegalidade (do “mercado das ruas”) poderia diminuir o contato dos jovens com outras substâncias ilícitas. 

Outra questão que a pesquisa ajuda a pensar é que não é a maconha, isoladamente, que traz mais ou menos risco de contato com outras drogas, mas questões emocionais, sociais e de comportamento. 

Assim, é possível imaginar que o jovem que já enfrenta dificuldades em lidar com sua rotina, com seu tédio, com suas expectativas e com seu projeto de vida é que pode acabar fazendo um uso mais frequente da droga e, possivelmente, estar sob maior risco de usar outras substâncias, como cocaína e alucinógenos. Não é a maconha, em si, que vai levá-lo a migrar para outras experiências. 

Jairo Bouer é psiquiatra 

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