O terrorista improvável

O terrorista improvável

Quem era Mohammed Merah? Sua nulidade ideológica parece incompatível com o terrorismo

Gilles Lapouge, de O Estado de S. Paulo,

24 Março 2012 | 16h41

Ele não tinha uma longa barba negra nem vestia a túnica escura dos “loucos de Deus”, terroristas que matam homens, mulheres e crianças para construir um mundo semelhante ao paraíso. Foi talvez o desprezo pelos signos jihadistas que protegeu o abominável Mohammed Merah e permitiu que zombasse dos 300 policiais que o perseguiam.

Desde que pulou a janela do apartamento térreo em Toulouse para levar uma bala na cabeça, surgiram vários testemunhos sobre sua vida. Mas eles, em vez de esclarecer sua personalidade, contribuem para tornar o quadro mais confuso. Às vezes Merah é descrito como um ser diabólico; outras, como um delinquente sem estatura; outras, como um jovem bonito, com aparência de anjo.

Mas como é possível que esse indivíduo não tenha sido localizado entre o momento no qual matou os soldados e o seguinte, quando assassinou crianças judias? Não foi a esquerda que fez a pergunta. Foi o poderoso chanceler Alain Juppé, que acrescentou: “Compreendo que se queira saber se houve uma falha”.

Os serviços secretos respondem que um indivíduo que vive como todo mundo vive, gosta de carros bonitos, roupas bonitas, sapatos de grife e noitadas em boates não dá motivo para ser seguido pela polícia. Certo. Mas agora sabemos que esse jovem comum viajava frequentemente para o Paquistão, Afeganistão, Iraque, Irã, Israel...

Nessas ocasiões, passou pelos controles dos aeroportos. Foi interrogado na volta do Waziristão do Norte, região entre o Paquistão e o Afeganistão onde pululam os islâmicos que mantêm escolas de formação para o terror. Explicou aos policiais que viajara para fazer turismo. Tirou fotos que provam seu interesse pela paisagem. Fotos muito bonitas. “Ah! Muito bem. Até logo”. Os americanos seguiram Mohamed no Afeganistão. Acharam seu comportamento tão preocupante que o jovem não pôde mais entrar nos EUA. Como são desconfiados esses americanos!

Uma coisa é certa: nesse personagem sombrio cruzam-se os traços menos compatíveis. Um jovem simpático que não se importa com o Alcorão, com a política, menos ainda com a guerra santa. E, ao mesmo tempo, um rapaz que há anos transita pela periferia dos movimentos islâmicos a ponto de ser procurado pelas polícias.

Mohammed era um militante fundamentalista? Faltam provas. Sua nulidade ideológica parece incompatível com os hábitos dos terroristas. Especialistas dizem que a influência extrema da jihad pode atrair indivíduos pouco religiosos. Mas é raro que os loucos de Deus levem existência tão fútil.

Em suas confidências, ele se define um seguidor do salafismo. Trata-se de uma seita sunita que exige a volta às origens, mas está dividida. Há a corrente que só se preocupa com a religião. A segunda tendência, a sawah, envolve-se nos assuntos de Estado. A terceira ramificação é a dos salafistas jihadistas. Ultraminoritários, praticam a violência mais selvagem, inclusive atentados suicidas. Muito austeros, vivendo fechados em seu círculo, distinguem-se pelas vestimentas.

Portanto, resta um enigma: Mohammed teria se misturado à sociedade, fingindo não conhecer seus companheiros de combate, a fim de dirimir as suspeitas e agir, com rapidez meteórica, no momento em que seus chefes dessem a ordem? Ou era um solitário autêntico, um lobo, que não dependia de nenhuma organização? Podemos também imaginar que se tenha tornado terrorista por dificuldades pessoais, azares e acessos de furor. Uma manhã, ele assassina um soldado para roubar sua moto e grita: “Você mata meus irmãos no Afeganistão. Eu mato você”. Dias mais tarde aparece diante da escola judaica, numa manhã de primavera, e mata três crianças. Conservando o sangue-frio, filma os rostos ensanguentados. Esse é um traço espantoso: o domínio dos atos, o manejo perfeito das armas de guerra, a insensibilidade diante das vítima. Seu desaparecimento. Onde ele aprendeu essa tranquilidade?

Depois disso, só lhe restaria a morte.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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