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Vanessa Barbara
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O tipo de pessoa

Eu sou o tipo de pessoa que cobre a câmera do computador para não ser alvo de vigilância da NSA. O tipo de pessoa que criptografa o conteúdo do micro-ondas, que bota senha de 16 dígitos no celular e mete o aparelho na geladeira quando quer ter uma conversa séria sobre iogurtes.

Vanessa Barbara, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2016 | 02h00

O tipo de pessoa que gosta do Charles Bovary e sabe que o lugar da Ilsa é mesmo com o Victor Laslzo. Que discorda do padre na missa e que vai à redação do New York Times se queixar com o chefe de que a Broadway não tem mais sapateado (O tipo de ser humano que valoriza um bom número de sapateado).

O tipo de pessoa que, num jantar com o Departamento de Turismo da Nova Zelândia, engata num monólogo confuso sobre países antípodas – e todo mundo fica com pena.

Que procura no Google “como perder o medo de morrer”.

Que puxa para empurrar e empurra para puxar.

O tipo de gente que vê uma minissérie documental de sete horas sobre o caso O. J. Simpson (recomendo, é da ESPN Films) e emenda com um documentário do Ken Burns sobre os cinco do Central Park. 

Que vai tomar sol na varanda assistindo a TV Câmara e comendo melancia. 

Que resgata cães na rua e surta porque acha que é responsabilidade demais, então consegue um adotante e morre de saudades. Que acolhe um poodle idoso porque ele também é deprimido e tenta pedir a opinião dele sobre uma coluna (ele prefere com molho).

O tipo de pessoa que todo mundo pensa que é estagiária e ninguém leva a sério, mas que em silêncio tem planos de dominação do mundo e quase descobriu para que serve tudo isso que está aí (tem a ver com tartarugas), e vocês vão ver só quando as máscaras começarem a cair.

O tipo de pessoa que nunca captou o que o autor quis dizer, mesmo que ela mesma seja a autora. 

O tipo de pessoa que não tem ideia do que está fazendo, mas sabe que está ficando bonito. 

O tipo de pessoa que só entende quando tem historinha. 

Que espirra toda vez que come mousse de chocolate e que, se estivesse no Juízo Final, diante de um Deus onisciente, a única pergunta que teria a fazer é relativa a girafas. O tipo de pessoa que não tem senso de prioridade. 

O tipo de gente que adora supermercado e papelaria, que antropomorfiza o panetone e fica com pena quando ele não está sendo comido, e que chora quando um coelhinho morre num conto do Raymond Carver. 

Que passa nos pés um creme para as mãos e toma Naldecon Dia durante a noite. Que acha que ser corajosa é o melhor elogio, mas se esconde no banheiro com alarmante frequência. Que confunde RuPaul com Ron Paul e achou o máximo que uma drag queen estivesse concorrendo para presidente – só meio estranho que fosse no Partido Republicano.

Que vive perdendo o fio da meada e esquecendo de prestar atenção. Que pede desculpas para a impressora e se sente culpada quando tromba na rua com uma lixeira.

Esse tipo de pessoa.

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