O Vale dentro de uma bolha

Ainda não sabemos se existe uma bolha no Vale do Silício.

Nick bilton, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2012 | 03h10

Mas algo que me parece claro: boa parte do Vale do Silício está envolta numa bolha.

No ano passado, deixei Nova York para morar no centro da indústria tecnológica e devo dizer que nunca conheci nenhum lugar como o Vale.

O dinheiro que existe por aqui chega a ser obsceno. Os novos ricos se mostram obcecados em superar os rivais. Em uma das festas da indústria a que fui, o tema era "selva". Isto incluía um tigre de verdade preso numa jaula e um macaco que posava para fotos tiradas com o Instagram. A festa de Natal oferecida pelo Google em Palo Alto tinha montes de neve no jardim para reforçar o espírito. Fazia 21 graus do lado de fora. O fundador do Airtime, Sean Parker, deu uma festa e contratou modelos para passear pelo salão, e ainda havia a presença de Snoop Dogg. O custo da festa: US$ 1 milhão.

Num jantar com fundadores de startups e investidores, a conversa pode logo deixar os domínios das brincadeirinhas da indústria e se converter num debate sobre as suas recentes aquisições bilionárias ou os modelos de jatos que possuem.

É por isso que um seleto grupo de habitantes do Vale vive isolado do mundo, protegido por uma bolha artificial. No resto dos EUA, onde o desemprego está encalhado acima dos 8%, as pessoas têm dificuldade para pagar a hipoteca ou encontrar empregos.

O Vale é uma região que gira em torno de uma atividade, como em Los Angeles com o cinema ou em Washington com a política. Tudo aqui envolve a indústria da tecnologia. Às vezes, é impossível se esconder dela.

Como outros repórteres da área de tecnologia com quem conversei, costumo ouvir pessoas anunciando grandes ideias de suas empresas nas situações mais inusitadas: esperando na fila para pedir um café ou em plena praia. "Ei! Você é Nick Bilton, do Times!", ouvi alguém gritar enquanto usava o banheiro. "Sou um empreendedor - posso lhe mostrar meu mais novo aplicativo para iPhone?"

Todos aqui se apresentam como "empreendedores". É como se este título fosse distribuído a cada um ao desembarcar no aeroporto. "Bem-vindos a São Francisco, vocês agora são empreendedores! Podem escolher a camiseta de sua startup favorita."

Contudo, esta crença na ideia de que todos são empreendedores também pode ter um efeito prejudicial. Ela pode levar alguns fundadores a buscar uma aquisição fácil em vez de procurar a inovação verdadeira e um negócio que seja realmente sustentável e lucrativo - um desafio para os empreendedores dignos deste nome.

Existe também uma bizarra cultura de microcelebridades: pessoas que são famosas no Vale, mas que não chamariam a atenção em nenhuma outra parte do mundo, mesmo que estivessem pintadas com tinta fluorescente. Elas criam startups imitando as ideias dos outros, fazendo apenas modificações menores numa fórmula de sucesso - variações diminutivas do Facebook, do Instagram ou do Twitter.

Inventores. Mas existe outro lado no Vale. São pessoas realmente preocupadas em construir empresas que sejam inovadoras de fato. Fundadores cuja motivação não é ver seu nome publicado nos blogs de tecnologia, muito menos em postar fotos de si mesmos ao lado de celebridades que passaram a investir em empresas do Vale, como MC Hammer ou o ator Ashton Kutcher.

São inventores, projetistas e programadores genuinamente animados, algumas das pessoas mais brilhantes dos Estados Unidos, empenhadas em criar algo que possa solucionar um problema do mundo. É pela existência de pessoas assim que eu amo trabalhar no Vale do Silício.

Em qual outra parte do mundo as pessoas tentam criar um serviço mais eficiente de táxis, um termostato melhor ou uma inovadora ferramenta que facilite a revolta social? Onde mais alguém tentaria reinventar o ensino, o escotismo e até mesmo o governo? E há ainda aqueles que estão ajudando a economia, criando serviços que permitem às pessoas encontrarem novas fontes de renda.

Depois que aprendemos a abrir caminho em meio à bajulação e à ostentação, vemos que existe aqui um trabalho realmente mágico sendo feito nesta região do mundo.

Para sorte daqueles que vivem fora da bolha do Vale do Silício, existe aqui um maravilhoso grupo de criadores que acredita que tudo está errado e que a tecnologia, a criatividade e a coragem são realmente capazes de consertar os problemas do mundo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

É JORNALISTA, COLUNISTA DO NEW YORK TIMES

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