O Vale do Silício de Santa Catarina

Florianópolis investe em parque de inovação tecnológica para 400 empresas

Evandro Fadel / TEXTOS E Cristiano Andujar / FOTOS, O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2010 | 00h00

No norte da ilha de Florianópolis, perto da agitada praia de Canasvieiras, uma área de 4,3 milhões de metros quadrados - o equivalente a cerca de 450 campos de futebol - começa a se transformar em um dos maiores parques de inovação da América Latina, unindo desenvolvimento tecnológico, socioambiental, esportivo e serviços especializados.

Batizado de Sapiens Parque, o projeto deve receber investimentos de R$ 2,4 bilhões até 2020. "A meta é termos 400 empresas instaladas", conta o diretor executivo do projeto, José Eduardo Fiates. Em reportagem da BBC, o Sapiens foi apelidado de "Vale do Silício da América do Sul".

O governo de Santa Catarina já aplicou R$ 9 milhões no projeto e o federal, R$ 2 milhões. O terreno, avaliado em R$ 230 milhões, pertencia à Companhia de Desenvolvimento de Santa Catarina (Codesc) e à estatal SC Parceria.

O Sapiens é fruto de um processo que começou em Florianópolis com a chegada da Universidade Federal de Santa Catarina, em 1960. Ganhou projeção em 1984, com a criação da Fundação Certi (Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras), organização de pesquisa e desenvolvimento tecnológico sem fins lucrativos. Para superar as restrições para a instalação de grandes empreendimentos industriais na ilha, jovens talentos desenvolveram projetos em incubadoras. Delas, floresceram empresas e o primeiro parque tecnológico, o TecAlfa.

Em 2000, a Certi promoveu a análise de 300 projetos de complexos culturais, ambientais, industriais, tecnológicos e turísticos, desenvolvidos por 22 países, com forte impacto social. Entre as ideias avaliadas estavam o Vale do Silício, na Califórnia (EUA), e o Parque Daedock, em Seul (Coreia do Sul). "Queríamos algo relevante, com conceito multidisciplinar e sustentabilidade ambiental, econômica e social", explica Fiates.

A revitalização em um antigo casarão às margens Avenida Luiz Boiteux Piazza, em 2007, deu início ao projeto. Uma das primeiras empresas a se instalar no local foi a Animaking Produções Cinematográficas, que saiu de São Paulo para produzir o primeiro longa-metragem em stop motion do País (mais informações nesta página).

Âncora. Uma das principais âncoras será o Centro de Referência em Farmacologia Pré-Clínica, que receberá R$ 8 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos, do Ministério da Ciência e Tecnologia e da Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado de Santa Catarina. "Apenas neste centro serão de 60 a 80 pesquisadores", disse José Batista Calixto, superintendente do centro que deve ser inaugurado em 2012.

"O Brasil vem perdendo competitividade e não participa de inovações", afirma. Em 2009, a indústria de fármacos faturou US$ 16,8 bilhões no Brasil - mas menos de 25% coube às companhias nacionais. Na tentativa de reverter o quadro, o Sapiens investirá também em empresas incubadoras - serão 13 só no centro.

Outro destaque será o Instituto de Petróleo, Energia e Gás (Inpetro), parceria entre UFSC e Petrobras para pesquisas que promovam o desenvolvimento tecnológico brasileiro. Estão previstos laboratórios sustentáveis, além de poços secos para teste de técnicas de bombeamento e criação de sistemas de visão submarina para monitorar estruturas e reparar cascos de navios. O instituto, que deve entrar em funcionamento em 2011, empregará 300 pesquisadores. O Inpetro terá investimentos de R$ 32 milhões, feitos pela Petrobras.

Com o Sapiens, Florianópolis quer se fortalecer como uma capital de inovação, diz o secretário municipal de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Sustentável, Carlos Roberto de Rolt. "O trabalho de mais de 20 anos começa a aparecer para o mundo." O entusiasmo não contagia só autoridades locais. A revista americana Newsweek seguiu o tom da BBC, ressaltando que Florianópolis tem ao menos um atrativo a mais: as praias.

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