O vampiro de Copa

Editora Papagaio relança a obra literária completa de Fausto Fawcett, com três livros e mais dois inéditos, Favelost e o infantil Loirinha Levada, a partir de março

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

18 Janeiro 2010 | 00h00

CALCINHA EXOCET – Fawcett na semana passada, em Copacabana, e em 1987, com os Robôs Efêmeros

 

RIO

ENVIADO ESPECIAL

Uma  hora e  meia com Fausto Fawcett num bar no Leblon, e tudo que ele bebe é uma garrafinha de água de 300 ml. A memória lembra dele nos anos 80 e 90 sempre com um copo de uísque na mão. Está magrinho e fala baixo, é até possível tomá-lo por um mero Fausto Falsete. Mas os olhos muito miúdos e o jorro vertiginosamente verborrágico confirmam: é ele mesmo, o grande vampiro visionário de Copacabana, o detentor do recorde mundial do maior número de versos já feitos no menor espaço de tempo para um único bairro do planeta.

Músico, escritor, poeta, colunista de jornais, divulgador  de loiras, Fausto Fawcett, o bardo que revirou o pop dos anos 80 e 90 com hits como Kátia Flávia e Juliette, está  agora com 52 anos. E seus tenazes admiradores vão vibrar com a notícia: a Editora Papagaio, de São Paulo, prepara-se para reeditar todos os seus livros - Santa Clara Poltergeist (1990), Básico Instinto (1992) e Copacabana Lua Cheia (2000). De quebra, vai lançar dois inéditos: Favelost e o  infantil Loirinha Levada. Foi justamente esse o pretexto que levou a reportagem ao Rio para um encontro com Fawcett:

No mesmo dia que morreu o Michael Jackson, havia morrido a Farrah Fawcett. E havia só dois ramalhetes de flores para ela na Calçada da Fama. Foi ela que te deu o nome, não? O que acontece com as loiras?

O que acontece? Tudo, né? Tanto particularmente quanto para a mídia. Sem loira, fica difícil. Fica difícil para qualquer coisa, desde a burrice, para as piadas, até as loiras fatais.

Você falava muito nos anos 1980 dos programas militares americanos, dos bastidores do projeto Guerra nas Estrelas, e também abordava muito o simulacro baudrillardiano. Aquele futuro se realizou?

Ali pelos anos 90, até o meio da década, houve, para variar, uma euforia com essa nova ferramenta, o computador. Parecia que era só abrir um site e ficar milionário. Agora, nesta década, aconteceu que o povão mundial tomou conta. Aí, o que o neguinho quer mesmo é fofoca. As redes sociais envolvem muita gente. E teve gente que se pôs a pensar que isso era uma revolução, que as redes sociais nos trariam uma inteligência coletiva. Eu acho que o grande barato que se tem nessa situação tecnológica atual é a banalidade. Não temos mais aqueles sonhos positivistas, de que a ciência vai nos levar a uma excelência, a uma utopia. Não há dúvidas que temos mais conforto, temos uma capacidade gigantesca de armazenamento de dados, de informações. Mas essa meta de a gente chegar, com o  progresso, a algum lugar, não vai dar porque a gente é errado, maluco, trágico. Vai dar defeito. Então aquela onda do Baudrillard... O que eu gostava mesmo dele era aquele jeito meio apocalíptico, até meio obscurantista. Eu gostava da verve dele. Eu me lembro de um poema do Paulo Leminski que diz assim: "Um poema que você não entende é digno de nota/ Tem a dignidade de um navio perdendo a rota". Então eu gostava daquele negócio do Baudrillard, não do simulacro, essas coisas que eram até divertidas, mas o lance daquele cara, aquele sociólogo, pensando de forma catastrófica a comunicação. Não tenho esse deslumbramento. Por exemplo: foi um auê quando apareceu o Second Life, e hoje ninguém se interessa mais pelo Second Life. Virou uma trucagem, mas era o grande hit, tinha empresa lá dentro, dinheiro. Mas as pessoas têm o Second Life aqui dentro (aponta para a cabeça). A publicidade já tem Second Life há 70 anos, sacou? Então aquilo ali é apenas um desenho animado.

Mas hoje temos situações efetivamente novas, como a mudança no eixo econômico mundial. E teve a frase do Stockhausen, que foi quase linchado quando falou que o atentado do 11 de Setembro ficaria como a grande obra de arte do século 21...

Para quem escreve, para o humorista, você acaba se interessando pelo tragicômico de tudo isso. Em última instância, um pedaço de carne com prazo de validade é um delírio, possibilita um ensaio mamífero ao autor. Tem de haver civilização, tem de fazer filho, cada vez que uma mulher abre as pernas e faz um novo tamagochi, você tem de trabalhar mais um pouco. Para os escritores, de uma forma digamos clássica, você tem de tratar a humanidade a socos e pontapés para a gente se aproximar mais do ser humano através do patético dele, da fraqueza dele, e com isso demonstrar a capacidade de força civilizatória. Aí entra moral, tecnologia, entra tudo, para dar sentido àquilo. Mas começando pelo dark side, pela falha. Porque senão não vai. Eu fico maluco vendo meia dúzia de reportagens sobre o filme Avatar, que ainda não vi. E a maioria das matérias diz que "é realmente uma crítica ao estágio em que estamos de deterioração". Na verdade, é esse milenarismo do discurso do aquecimento global... Vai falar para os poloneses que morrem com 40º abaixo de zero sobre aquecimento global... Em Avatar, parece que o cara vai para um planeta que tem algum recurso, alguma iguaria mineral, e vão todos falando que é uma crítica porque lá estão povos da floresta, existe uma preservação, não sei o que mais.... Pô, a esta altura do campeonato o nego vem com uma conversa dessas? Não rola. Não rola porque nós não somos assim. Nós somos industriosos, artificiosos, e ainda temos sentimentos, pô! Nós somos antinatureza, no sentido que queremos cutucá-la com vara científica curta. Olha em volta, cara! O conforto da gente vem daí, esse é o efeito colateral.

Você agora escreveu Loirinha Levada, um livro infantil inédito. O que é isso? Fausto Fawcett escrevendo livro infantil?

(Risos) É a história de uma menina, o que eu chamo de Sub-12. Se é para crianças? Só para as espertas (risos). É uma garota que narra na primeira pessoa, e vai narrando a vida dela, meio blog. Estou ainda no meio do negócio. É uma menina bem temperamental, ela diz que tem "sangue de chefia". Ela começa falando da vida dela com o irmão, mas aí o irmão morre, e ela fica abalada. Os pais se separam, ela se reveza entre pai e mãe. Então, essa "levada" pode ser levada de travessa ou de quem vai de um lado para outro. Ela começa a fazer sucesso em comerciais, e a mãe quer seu dinheiro. E ela tem um ritmo verbal de rap, também tem essa outra "levada".

Algum dos seus livros anteriores fez sucesso?

Nenhum deles vendeu, foram vendendo aos poucos. Santa Clara Poltergeist não foi bem, mas foi ótimo de crítica. Sempre encontro pessoas que dizem que leram. O livro completa 20 anos agora. No estreitíssimo círculo de ficção científica, entre cyberpunks, cyberneiros, etc., ele virou referência. E o Básico Instinto é uma onda dos shows do disco. Também é a mesma coisa, colheu elogios, etc., mas não decolou. Copacabana Lua Cheia fazia parte de uma coleção, que acabou só tendo três livros editados, que era para dar uma geral no Rio, vários artistas falando de várias regiões da cidade. Eu fiquei com o primeiro. E a coleção acabou abortando após três livros, nenhum dos três teve sucesso.

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