O velho culto

Às 5h da manhã (9h aqui no Brasil), o noticiário local de São Francisco já anunciava, ao vivo, que uma fila mais longa que um quarteirão já estava formada em frente ao Moscone West, ala oeste de um centro de convenções gigantesco situado bem no centro da cidade californiana que, há exatamente uma semana, sustentava as silhuetas enormes de duas maçãs em sua fachada.

O Estado de S.Paulo

18 Junho 2012 | 03h08

A fila era formada por desenvolvedores ansiosos pelo começo da WWDC, convenção anual da Apple, sempre inaugurada por uma apresentação com as novidades para aquele ano. Esta edição, a 23ª, foi a primeira sem Steve Jobs como seu principal protagonista, mas a legião de admiradores que ele construiu seguia lá, nas ruas de São Francisco, esperando para ver onde mais a marca mais valiosa do mundo em 2012 viria a mudar no jeito das pessoas usarem seus aparelhos eletrônicos e a internet.

Os jornalistas chegaram ao Moscone às 9h, horário local (13h em Brasília), para guardar seus pontos de largada em frente à porta que dava acesso ao salão onde aconteceriam os anúncios. Isso mesmo, pontos de largada. E ali, ainda na concentração da espera, já era possível saber o que seria apresentado no evento: iOS 6, Mac OS, iCloud, AirPlay e Mapas, anunciavam os cartazes dentro do Moscone.

Vinte minutos para começar a apresentação, movimentação inquieta, a porta começa a se abrir e... Correria! Nem a fita que separava os cinegrafistas dos demais jornalistas fica em pé. Na disputa para conseguir um lugar privilegiado na plateia, ela é pulada, derrubada e pisoteada.

Já lá dentro, começa a correria por sinal de internet. O site do evento dizia claramente que não era necessário levar um roteador ou se preocupar com internet 3G, pois haveria Wi-Fi no local. Até tinha, mas com a grande demanda, estava impossível para algumas pessoas se conectar.

Meu iPad conecta, Tim Cook sobe ao palco e a Apple começa sua apresentação, dividida em três partes. A primeira foi a atualização de linhas de computadores já conhecidas, MacBook Air e Pro, com chips mais potentes, compatibilidade com USB 2.0 e 3.0 e maior capacidade de armazenamento em flash. E o lançamento de um novo modelo de MacBook Pro, com a tela Retina.

A segunda, sem muitas novidades, só consolidou um lançamento da Apple de fevereiro sobre o novo sistema que rodará os computadores da empresa. O Mac OS Mountain Lion é inspirado no iOS e conta com aplicativos e funções que antes eram exclusivas de iPads, iPhones e iPods Touch (leia mais abaixo).

Mas o evento era mesmo sobre o iOS 6, nova versão do sistema operacional móvel da empresa. Com várias das mais de 200 novas funcionalidades do iOS apresentadas a toque de caixa para não deixar ninguém respirar, o lançamento foi recebido com bastante otimismo pelos desenvolvedores presentes.

A plateia era contida com as palmas e não era incomum alguém chamar uma salva e não ser acompanhado. Mas a multidão não economizava suspiros de espanto ou de comemoração. "Oooooh" para a integração nativa com o Facebook. "Ooooh" para a Siri no iPad. "Ooooh" para a função turn-by-turn dos mapas. Aplausos incontidos para a função Flyover do sistema próprio de mapas da empresa, que permite "voarmos" por cima de cidades controlando o ângulo da visualização em 3D.

Só Tim Cook não conseguiu causar muita comoção. Em sua ida final ao palco para fechar o keynote, o novo CEO da Apple diz, com voz potente: "Nós, da Apple, com nossos produtos, e vocês, desenvolvedores, criando aplicativos, podemos efetivamente mudar o mundo". Segue-se um silêncio que espera por uma empolgada salva de palmas. "Espero que vocês tenham gostado das novidades que apresentamos hoje. Obrigado", completa. E só então vêm as palmas finais.

Na saída do evento, um casal de turistas parou para fotografar - com seu iPhone - o prédio decorado com o símbolo da Apple. Eles, que já podiam ter tomado sol em uma das diversas praças de São Francisco, passeado pelo calçadão que beira os cais, ido ao Museu de Arte Contemporânea e à Golden Gate Bridge, visitado a esquina Haight-Ashbury, berço da contracultura norte-americana, e o Castro, bairro que liderou a luta pelo direito dos homossexuais na década de 70, se perguntaram o que estaria fazendo ali aquela multidão sentada nas calçadas com seus Macs, iPads e iPhones. "Ah, deve ser algum evento para fanáticos", concluem.

Carla Peralva

carla.peralva@grupoestado.com.br

São Francisco

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