O Vietnã ainda refina seu papel no cenário globalizado

Mais que muitos países, o Vietnã tem sido maltratado pelos altos e baixos da globalização. Um ator relativamente novo na economia global, o país se beneficiou de uma inundação de capital e interesse do Ocidente nos anos 90 e início desta década, mas depois foi devastado pelas reverberações da mais recente crise econômica nos Estados Unidos, a 12 mil quilômetros de distância.

Pradnya Joshi*, O Estadao de S.Paulo

26 Dezembro 2009 | 00h00

A estratégia do Vietnã para competir na arena global - e relativamente bem-sucedida até pouco tempo atrás - foi cavar nichos de mercado onde ele pudesse entregar, por exemplo, produtos de qualidade como artesanatos e roupas especializadas que a China não poderia.

Mas todas as principais indústrias exportadoras do Vietnã são pesadamente dependentes de vendas nos EUA. Em 2009, o mercado americano foi o maior importador de bens vietnamitas, absorvendo cerca de um quinto das exportações.

Companhias de móveis, para citar um setor, sofreram forte queda nas encomendas após o acelerado declínio nas vendas de casas novas nos EUA.

"Um conjunto das fábricas menores está vivendo tempos extremamente difíceis", disse Michael Gunther, um administrador da Honai Furniture, uma empresa de 900 empregados instalada a 32 quilômetros da Cidade de Ho Chi Minh que faz de tudo, de cômodas para dormitórios a peças de arco e flecha.

Cerca de 20% ou 25% da produção da Honai vai para os EUA enquanto o restante é exportado para outras partes do mundo, particularmente para a Europa. Gunther disse que a companhia ainda não teve de demitir ninguém, mas que já viu concorrentes menores fecharem, uma tendência que ao menos permitiu que a Honai sustentasse seu negócio. "Alguns clientes pediram que nós aumentássemos nossa capacidade, mas não podemos porque estamos no limite dela."

A economia do Vietnã cresceu 4,6% até setembro em relação ao mesmo período de 2008, segundo o Banco Mundial, em parte por causa das medidas de estímulo do governo. Um país como os EUA teria ficado contente com um crescimento desses, mas o Vietnã, nos últimos anos, vinha conseguindo sustentar uma taxa média de crescimento acima de 7%.

Ao mesmo tempo, o país tem experimentado um forte recuo nas exportações. Nos primeiros 10 meses de 2009, as exportações vietnamitas encolheram 13,8% em comparação com o mesmo período de 2008, ainda segundo o Banco Mundial.

Embora essa queda seja menor que a verificada na maioria dos países em desenvolvimento, ela poderia fazer de 2009 o primeiro ano com crescimento negativo das exportações desde o início das reformas econômicas do país, segundo a mesma fonte.

O recuo é um problema particularmente grave para o Vietnã, uma das mais novas economias exportadoras do mundo. Comparado com outros países da região como Tailândia e Mianmar, o Vietnã ainda é um bebê em suas experiências com a globalização.

Durante décadas após a Guerra do Vietnã, a economia patinou por se sustentar sobretudo na agricultura. Até o presidente Bill Clinton e o Senado levantarem o embargo comercial americano em 1994, o Vietnã era um pequeno ator no mercado de exportação. Após essa mudança, demorou anos para o setor manufatureiro do país se tornar competitivo, particularmente em função de sua localização perto de países exportadores mais maduros como a China.

Para competir com os chineses, muitos fabricantes tentaram explorar alguns nichos e especialidades em vez de competir exclusivamente em preço e baixo custo da mão de obra.

A Dai Viet Garment Ltd., baseada na Cidade de Ho Chi Minh, conseguiu sustentar seus negócios porque se especializou em fabricar túnicas masculinas para a Arábia Saudita e outros mercados do Oriente Médio. A demanda pelas roupas é muito estável, o que permitiu que a empresa conservasse seus 500 empregados diretos e outros 300 de empresas subcontratadas.

Muitos donos de fábrica dizem que os custos trabalhistas subiram de 20% a 30% do custo da fabricação, de modo que cortar trabalhadores, horas extras e salários não ajuda muito para responder à queda da demanda. Ademais, as redes de despacho e transporte são muito mais robustas na China, o que pode colocar o Vietnã em desvantagem. "O que faz a diferença é o custo da mão de obra e o tempo de entrega", disse Diep Thanh Kiet, presidente da Dai Viet Garment.

À medida que cresce o mercado de turismo do Vietnã, atraindo particularmente novos resorts de golfe e pessoas em férias de outros países vizinhos do Sudeste Asiático e alhures, fabricantes de móveis como a Sadaco estão se reposicionando para oferecer esses novos resorts. Tran Quoc Manh, presidente da Sadaco, diz que ele também tentou diversificar sua clientela procurando consumidores na China e em áreas em crescimento do Vietnã, como Dalat City, onde novas vilas estão sendo construídas. Mas o mercado local não suplantará o enorme potencial do consumidor global.

"O mercado local ainda é pequeno demais comparado ao americano, e as exportações em geral para os EUA continuam crescendo, embora não tanto como as projeções anteriores à crise apontavam", disse Frederick R. Burke, um sócio administrador do escritório para o Vietnã da firma de advocacia Baker & McKenzie, que dá consultoria a exportadores.

Estatísticas precisas do governo sobre perdas de empregos no Vietnã são difíceis de obter, e mesmo gente de negócio daqui diz que o governo está subestimando os cortes. "As perdas de empregos foram generalizadas em parques industriais no fim de 2008 e começo de 2009. Mas poucas tomaram a forma de demissões abertas", escreveram Viet Tuan Dinh e Martin Rama num relatório em junho para o Banco Mundial. "A não renovação de contratos e os incentivos para saídas voluntárias foram mais comuns."

O empreendimento corporativo ainda é orientado pelas mãos do governo oficialmente socialista do Vietnã, um país onde a bandeira com a foice e o martelo tremula ao lado da bandeira vermelha vietnamita em muitos prédios de escritórios do governo e onde banners de motivação socialista são uma visão comum em fábricas.

O governo vietnamita tentou várias medidas para obrigar fábricas a manterem seus níveis de emprego durante a recessão, e adotou também um pacote de estímulo fiscal.

Mas muitos especialistas econômicos estão otimistas de que uma recuperação global ajudará o país a retomar o caminho do crescimento. "O governo está aprendendo com a experiência", disse V. Bruce J. Tolentino, economista-chefe da Asia Foundation, uma organização sem fins lucrativos com base em San Francisco. "Eles são pragmáticos, e esse pragmatismo está lhes servindo bem."

*Pradnya Joshi é jornalista

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