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Luiz Horta
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O vinho se desorientou na floresta

Novas comidas fazem requebrar as harmonizações convencionais

Luiz Horta,

03 de dezembro de 2009 | 12h22

LEI DA SELVA - Bichinhos crocantes da mata puseram vinhos para correrO mundo das harmonizações de comida com vinho tinha regras estabelecidas, algo monótonas, no estilo foie gras sempre com Sauternes ou chocolates com Banyuls. Tudo ia bem. Tais regras diziam respeito a um cenário fixo e previsível de produtos, predominantemente europeus e da alta gastronomia. De repente, o universo foodie cresceu. Apareceram, por exemplo, os chocolates com maior teor de cacau, nem doces nem untuosos. Estão num limbo, são quase salgados. Para eles tentou-se de tudo, Malbecs e Syrahs potentes se saíram melhor. Tintos com chocolate! Também aumentou o gosto pelo regionalismo. A valorização das cozinhas étnicas e os exotismos que aniquilaram as certezas. Na semana passada, Obama ofereceu seu primeiro banquete de Estado, ao primeiro-ministro indiano. O jantar foi problemático no aspecto vinícola. O cardápio, totalmente vegetariano, trazia, como prato principal, um hostil curry verde. A resposta da Casa Branca, que só serve vinhos produzidos nos EUA, foi um tinto californiano de uva Grenache. Deu errado. A escolha agitou a imprensa especializada americana. A maioria opinou que um Riesling seria mais apropriado. O vinho sofreu um tropeço aqui também, diante de meras formiguinhas. A cozinheira amazonense Dona Brazi fez um jantar com Mara Salles, do Tordesilhas (leia crítica aqui). Dona Brazi trouxe, como já fizera no Paladar – Cozinha do Brasil, pimentas potentes, peixes defumados de um modo diferente, caldos anestesiantes e... formigas, cabeçudas e crocantes. O que beber com formigas? A resposta parecia simples. Vislumbrei a vitória com um Jerez Amontillado e um Riesling, feito por Loosen no Estado de Washington. Fracasso. A mesa se encheu de taças, na procura por um acerto: espumantes branco e rosé; tinto português; vinhos fortificados. Nada. A comida não deu chance aos vinhos. A questão já não era mais de harmonias, mas de qual líquido apaziguaria o rebuliço delicioso que acontecia na boca. Diante de formigas, o melhor é tomar uma cerveja.

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