Obama quer países da AL como 'sócios', diz assessor

Dan Restrepo fala sobre as propostas do democrata para a América Latina.

Lourdes Heredia, BBC

05 Novembro 2008 | 03h23

Um compromisso dos EUA com a luta contra o narcotráfico e mudanças em relação a Cuba são alguns dos principais pontos da política de Barack Obama para a América Latina. É o que explica Dan Restrepo, um dos principais assessores de Obama para a região. Atualmente, Restrepo é diretor da seção para as Américas do Center for American Progress, um centro de pesquisas progressista em Washington. Descendente de espanhóis e colombianos, Restrepo trabalhou na equipe que assessorava o Comitê de Relações Internacionais da Câmara de Representantes para questões latino-americanas durante o governo do democrata Bill Clinton. Veja agora a entrevista que ele concedeu à BBC Mundo. Sobre o candidato Em que se diferencia a política de Barack Obama da de John McCain para a América Latina? As diferenças são muito claras. McCain queria continuar com as políticas ruins do governo de George W. Bush, enquanto o senador Obama quer abrir um novo capítulo nas relações com o hemisfério. O princípio é muito diferente: Para Obama, é importante falar com as pessoas do continente, porque ele acha que isto também beneficia os Estados Unidos. Além disso, ele quer trabalhar com os países do continente como sócios, conjuntamente, em temas como a segurança e a democracia. Obama quer encontrar-se e conversar com os líderes destes países para ver como estão. O que acontecerá quando Obama assumir a Presidência? Quando Obama chegar à Casa Branca, criará um cargo dedicado total e unicamente à região, 24 horas por dia, 52 semanas por ano. Esta pessoa terá acesso direto ao presidente e não deixará que a região passe despercebida, como fez o governo Bush. Além disso, em termos de comércio, Obama entende a importância de manter um mercado aberto e dinâmico e sabe que vivemos em uma economia globalizada. Mas Obama quer que essa economia sirva aos trabalhadores e consumidores tanto nos EUA quanto nos países latino-americanos, e não que seja um mecanismo por meio do qual só os mais ricos e as grandes empresas recebam benefícios. Livre comércio Durante as primárias democratas, Obama disse que iria mudar as regras do Nafta, o tratado de livre comércio com o México. Isto é verdade? O tratado já tem 15 anos e as circunstâncias se modificaram. É tempo de os líderes se sentarem e discutirem sobre como aprofundar as relações dos três países (o Canadá também faz parte do Nafta). Em relação aos tratados de livre comércio com o Peru e com a América Central, Obama também espera mudar as regras destes acordos? Obama apóia o tratado de livre comércio com o Peru porque traz benefícios econômicos e ambientais que a qualquer momento poderão ser usados para defender nossos interesses, o que não acontece com o tratado com a América Central. Precisamos nos assegurar que estes tratados defendam as pessoas, e não interesses especiais. E o que vai acontecer com o tratado de livre comércio com a Colômbia (que espera a aprovação do Congresso para poder ser implementado)? Obama reconhece a importância da Colômbia para a região e também reconhece os avanços conseguidos pelo presidente Álvaro Uribe em termos de segurança. Mas, por enquanto, o grande histórico de violência contra líderes sindicais e outros líderes de ONGs que tem a Colômbia não nos permite estar em posição de negociar um tratado. Por isso, queremos trabalhar com os colombianos para resolver esses problemas e chegar a um ponto onde poderíamos aprofundar nossas relações econômicas. México Qual a posição de Obama em relação à guerra contra o narcotráfico e à colaboração com o México? A respeito da guerra contra as quadrilhas de narcotraficantes que afetam tanto o México como os EUA, Obama crê que a Iniciativa Mérida (projeto de combate ao narcotráfico no México e na América Central) é um passo importante, mas é só um primeiro passo para resolver o problema. Os Estados Unidos têm que fazer sua parte. Não é só uma questão de apoiar outros governos, temos que reduzir o consumo de drogas nos EUA, e voltar a dar fundos a programas que Bush fechou. Também precisamos reestabelecer programas de vigilância comunitária e cortar o fluxo de armas, veículos e dinheiro que cruza a fronteira. Isto é um assunto sobre o qual Mccain não falou. Venezuela O senhor poderia falar mais sobre o encontro que Barack Obama poderia ter com o presidente Hugo Chávez, da Venezuela? O que tenho a dizer sobre a Venezuela é que as medidas erráticas tomadas pelo governo americano na região deram oportunidades para que Chávez tomasse espaço com sentimentos antidemocráticos. A grande pergunta é como lidar com esse problema. Seguir com a política incorreta de Bush ou começar a preencher este espaço vazio na sociedade? Mas como vão conseguir isso? Porque, sejamos sinceros, não acho que nenhum país da América Latina esteja interessado em mais intervencionismo americano... Não se trata de intervencionismo, mas cooperação. É chegar a estes países e analisar em conjunto como podemos trabalhar. E, sobre a pergunta sobre a diplomacia direta, o presidente já Kennedy disse: "Nunca devemos negociar por medo, mas também não devemos ter medo de negociar". Obama está disposto - nas condições corretas e sob certas regras - a reunir-se com Chávez e mandar uma mensagem de valores democráticos, o que Chávez não está demonstrando agora. Cuba Os cubanos que vivem nos EUA e os americanos poderão viajar à ilha quando quiserem, e não como agora, que estão proibidos de ir a Cuba? Baseado nas políticas dos últimos 48 anos, Barack Obama quer modificar o que não funciona e estabelecer uma verdadeira política que apóie a liberdade humana. A primeira coisa que ele fará é permitir a visita de familiares à ilha. Isto é o moralmente correto. O segundo seria permitir o envio de dinheiro a Cuba. Seriam os primeiros passos. O embargo continuaria. Ele se sentaria para negociar com Raúl Castro? No momento correto, nas condições corretas, e com o objetivo de que o encontro sirva aos americanos, Barack Obama estaria disposto a mandar uma mensagem ao povo cubano sobre direitos civis, sociais e humanos, que o governo cubano não está mandando. Não podemos seguir fazendo o mesmo e esperar um resultado diferente. Obama não tem medo de usar todo seu repertório para a liberdade e o bem do povo cubano. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.