Obama, raça e a diáspora brasileira em Idaho

Em Boise, duas brasileiro-americanas com o poder de mudar a história dos EUA.

Rafael Gomez, BBC

31 de março de 2008 | 06h15

"Quando cheguei aqui, 14 anos atrás, quase não tinha brasileiros. Aliás, não só brasileiros, mas pessoas de outros países em geral. Hoje, eu vejo pessoas da África, da América Central."Naira Munden e Fran Olson, sua amiga, conversam comigo sobre meu espanto em saber que tem gente do meu país vivendo na cidade em que me encontro, Boise, a capital do Estado americano de Idaho. O próprio nome "Idaho" sempre evocou em mim uma sensação de distância intransponível, meio como "Timbuktu" ou "Samarkand".De fato, é distante: saímos 6h30 de Pasco para chegar a este cenário à beira de montanhas nevadas por volta das 14h30. Estranho achar Naira e Fran aqui e bater papo como se, saindo do hotel, eu pudesse pegar um ônibus para casa."Acho que foi uma coisa gradativa", continua Naira. "A economia daqui é uma economia boa, as casas têm preço mais acessível. Muitas pessoas que moravam em Miami e na Califórnia começaram a vir para cá. E pessoas de outros países, sabendo que na população de Boise não havia muitas pessoas estrangeiras, isso atraía muito."A comunidade brasileira de Boise (pronuncia-se Bôisí) sinceramente me espantou. O Itamaraty nem tem estatísticas de pessoas no Estado, quando mais na cidade. Mas, na minha semana e meia de preparação para esta viagem pelos Estados Unidos, usei o Orkut para contatar a brasileirada na terra do Tio Sam e logo de cara os simpáticos moradores da capital do Idaho foram atrás de mim e se dispuseram a falar.Naira e Fran têm histórias que se assemelham, mas não são iguais às dos milhares de brasileiros que lutaram para vir para cá e vivem na sombra da ilegalidade. Elas se casaram com americanos e foram arrastadas para este destino. Hoje, têm nacionalidade americana e podem ajudar a decidir quem será o futuro presidente dos Estados Unidos, em novembro.Eleições e racismoO assunto é interessante e eletrizante para as duas, que falam, e muito, e com argumentos e contra-argumentos. "Prefiro votar na Hillary, não acredito nas questões republicanas", diz Naira, ressaltando que é democrata mesmo se Obama, seu preterido, seja o escolhido do partido.Fran está "bem indecisa". "O Obama, gosto muito dele, mas tem uma área dele que me preocupa, que é o racismo. Eu acho que aqui nos Estados Unidos tem um problema muito grande de racismo, e eu tenho medo que, com o Obama entrando, isso aumente ainda mais. Eu acho que quanto mais se falar... " As reticências escondem o fundamental.Depois ela explica melhor. "O que precisa aqui, que nunca ninguém falou, nunca é falado, e as pessoas têm medo de colocar é exatamente esse ponto, que eles chamam as raças de 'minorias'... eu não gosto de ser chamada de minoria. Eu acho que há gente inteligente em qualquer raça, qualquer pessoa é inteligente."As amigas brevemente entram num saudável debate sobre as credenciais de Obama e o medo do racismo se exacerbar. Naira: "Eu não tenho muito medo de que tenha uma reação racista. Mesmo eu querendo votar na Hillary, acho que o Obama está modificando os Estados Unidos, quarenta anos depois de Martin Luther King".Me veio a sensação estranha de não estar mais vendo duas brasileiras, e sim duas americanas da gema reproduzindo na minha frente o que deve estar ocorrendo em milhares de casas do país inteiro. O que as une e as diferencia das gringas é bem claro - apesar de não terem nada a temer com uma visita do agente de imigração, elas garantem que o tratamento dos estrangeiros no país é uma de suas prioridades na escolha do candidato à Casa Branca.Para Naira, antigamente as pessoas vinham para cá só em busca de uma vida melhor. Hoje não é mais isso. Muitos acabam sendo transferidos pela sua empresa e acabam... em Boise. O governo precisa espelhar essa realidade.Me despeço e fico pensando nos mitos e lendas de que a comunidade brasileira se ajuda no exterior, que brasileiros são todos irmãos. Não sei por que, me vem um ceticismo e uma sensação de que nem todos são tão "solidários".Mas Naira e Fran me pareceram sinceras e, se mais brasileiro-americanas forem, acho que muita gente pode ser resgatada de buracos perdidos nos quatro cantos de Idaho.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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