Obama reverte sinais iniciais de aproximação com América Latina

Apesar das elevadas expectativas, governo Obama evitou acirrar política doméstica para agradar aos vizinhos

Gustavo Chacra, O Estadao de S.Paulo

20 Dezembro 2009 | 00h00

As relações dos EUA com a América Latina foram dominadas pela crise hondurenha e, em menor escala, pela pressão para o retorno de Cuba à Organização dos Estados Americanos (OEA), as divergências envolvendo as bases militares americanas na Colômbia e a visita de Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil. Segundo analistas consultados pelo Estado, um resultado bem pior do que as elevadas expectativas do começo do ano, quando Barack Obama se reuniu com o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e outros líderes da América Latina.

"Houve uma melhora no simbolismo e na boa vontade, mas pouco avanço", afirma o diretor do Council of the Americas em Nova York, Christopher Sabatini. O diretor do Diálogo Interamericano, Michael Shifter, acrescenta que "as expectativas eram pouco realistas" com a chegada de Obama ao poder e, naturalmente, os dois lados se decepcionaram. O presidente evitou entrar em choque com líderes da região, tentando se aproximar até de Hugo Chávez. "Mas aos poucos começou a surgir uma irritação com alguns países", explica Shifter. Segundo o cientista político, o primeiro problema nas relações eclodiu na reunião da OEA em San Pedro Sula (Honduras), em junho, quando "a cúpula se concentrou em Cuba". "E por culpa dos latino-americanos", acrescenta Sabatini.

Ironicamente, poucas semanas depois do encontro da OEA em Honduras, o presidente deste país centro-americano, Manuel Zelaya, foi deposto. A Casa Branca concordou com a totalidade dos países da região, classificando a ação como golpe e tentou ajudar de uma forma coordenada. Primeiro, com a OEA e posteriormente com a ajuda do Nobel da Paz e presidente da Costa Rica, Oscar Arias. Aos poucos, porém, Obama distanciou-se dos latino-americanos em busca de uma solução negociada, que levasse em conta também a posição de muitos congressistas americanos, democratas e republicanos, que consideraram a remoção de Zelaya constitucional. Depois das eleições de novembro, a divisão se ampliou ainda mais, com os EUA reconhecendo a eleição de Porfírio Lobo, enquanto Brasil, Argentina e Venezuela, entre outros países, a consideraram ilegal.

O terceiro ponto de disputas envolvendo os EUA e os países da região foi a questão das bases militares na Colômbia. "Obama achou desnecessário o discurso de alguns líderes como Lula sobre a preocupação com as bases", afirma Sabatini. Segundo o analista político, os brasileiros e outros países sabiam que não havia ameaça americana alguma. Shifter, por sua vez, diz que os "EUA erraram ao não consultar o Brasil" antes de tomar a decisão.

Nos EUA, o Brasil passou a ser considerado um líder regional, mas não concorrente dos americanos. Seria mais um parceiro. Divergências sobre as bases na Colômbia eram esperadas. Mas o que irritou mais os EUA foi a visita de Ahmadinejad em novembro. "O Brasil deixou de ser visto com seriedade", diz o líder do Council of the Americas.

Shifter crê que em questões como energia, meio ambiente e combate à discriminação racial não há tanta diferença entre os latino-americanos e os EUA. No próximo ano, a expectativa é de que o combate ao tráfico de drogas domine os debates. As eleições no Brasil também serão importantes, "apesar de o governo de Obama não ver muita diferença entre os principais candidatos brasileiros", disse Shifter, se referindo a José Serra e Dilma Rousseff.

Em 2010, diferentemente da maior parte deste ano, os EUA terão um responsável pela diplomacia para a região. Arturo Valenzuela finalmente assumiu o cargo no mês passado. Obama pode visitar o Brasil, caso Thomas Shannon assuma a Embaixada em Brasília. Mas, dizem os analistas, Iraque, Afeganistão e Paquistão ainda serão bem mais importantes do que as nações ao sul do Rio Grande, com exceção do vizinho México.

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