Obras olímpicas transformam bairro do leste de Londres

Moradores de Stratford criticam mudanças na região, poucos meses antes de virarem o centro das atenções do mundo.

Paula Adamo Idoeta, BBC

27 Março 2012 | 08h07

Stratford, no leste de Londres, já foi um bairro industrial, um destino de imigrantes pobres e uma área negligenciada pelas autoridades londrinas. Agora em processo de renovação, a região prepara-se para, em poucos meses, tornar-se o centro das atenções mundiais.

A poucos metros da estação de metrô de Stratford, foram construídas algumas das principais arenas dos Jogos Olímpicos de Londres 2012. Estão ali o estádio olímpico, o velódromo, o ginásio de basquete, o parque aquático, o centro de mídia, a vila dos atletas e uma escultura olímpica que é admirada por alguns e criticada por outras.

As mudanças no local - já em curso há alguns anos - estão sendo acompanhadas de perto pelos moradores locais, alguns entusiasmados com as perspectivas para o futuro de Stratford.

Para outros, porém, os efeitos são mais negativos do que positivos.

"Estou contente que Londres receba as Olimpíadas, mas não tanto que elas ocorram em Stratford", contou à BBC Brasil a aposentada Margareth Staines, 66, que sempre viveu no bairro.

"Estão derrubando muitos prédios históricos, há muito mais gente (circulando), e os hotéis daqui triplicaram seus preços por causa das Olimpíadas. Me irrita ver que estejam tirando proveito das pessoas."

A rua onde mora Staines será ponto de passagem, segundo ela, para muitos dos visitantes do parque olímpico. "Mas não conheço ninguém daqui que vá aos jogos. Eu só vou ver pela TV."

Ao mesmo tempo, ela ressalva, as mudanças trouxeram "muitas oportunidades de emprego para os mais jovens".

Algumas dessas oportunidades estão no novíssimo shopping center Westfield, ao lado da estação de metrô, que tem atraído milhares de visitantes. No sábado em que o local foi visitado pela BBC Brasil, o movimento era de fazer inveja a qualquer shopping brasileiro, num momento em que a Grã-Bretanha vive uma crise econômica.

Toda a região virou um grande canteiro de obras, com ruas, calçadas e prédios sendo erguidos ou refeitos. E, há, é claro, as obras olímpicas, de 2,5 km² (equivalente a mais de 350 campos de futebol) e custos de 8 bilhões de libras (cerca de R$ 24 bilhões), segundo as autoridades locais.

"Há seus prós e contras", avaliou a moradora nigeriana Patricia Usifo, 37, que passeava com seu filho numa praça de Stratford. "A área está muito mais movimentada, cheia de gente. Demoro para me locomover e pegar o ônibus. Mas o padrão de vida melhorou, vejo mais ofertas de empregos. E com o shopping posso fazer minhas compras em um lugar só."

'Limpar a sujeira'

Mas num bar a dez minutos da estação de Stratford, as queixas aumentam.

"Odeio as Olimpíadas", disse, sem meias palavras, o dono do pub The Builders, Michael Kevin Leach. "Tivemos que aturar o barulho e a bagunça da construção do estádio, e só vamos ver (as competições) na TV. Não há nenhum benefício para a população local, e os preços de moradia subiram."

E o movimento do pub, não vai melhorar com a chegada de tantos visitantes? "Só o que terei é uma fila de pessoas querendo usar o banheiro, porque não há banheiros públicos suficientes. E sobrará para mim a tarefa de limpar a sujeira."

Ao seu lado, a mãe de Leach conta que talvez sua casa seja derrubada para a ampliação de uma universidade local - mais uma das transformações de Stratford.

O mesmo problema terá Harry (que não quis divulgar seu sobrenome), 67, morador do bairro desde 1971. "Vou ter que me mudar e perderei (contato com) as pessoas que conheço aqui."

Valorização

Ao mesmo tempo, porém, as obras na região atraíram o casal Siân O'Riordan, 23, e Iain Killoughery, 24, que se mudaram há apenas seis meses para um apartamento a poucos quilômetros do estádio olímpico.

"Os preços (dos imóveis) estão subindo, e essa foi uma das razões pelas quais compramos aqui", disse O'Riordan. "E nós dois trabalhamos com educação esportiva, por isso seremos voluntários durante os jogos."

O estudante Abdillahi Aded, 26, há 12 anos morador de Stratford, também contou que será voluntário, orientando turistas que chegarem à área. "Estou animado (com as transformações), temos novas lojas, novas casas, novas avenidas aqui."

O professor somali Farhan Hassan, 37, tem opinião semelhante. "Esta é uma área historicamente muito carente, e agora temos expectativas de mudanças. Os preços estão subindo, mas também há mais oportunidades para os negócios locais." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.