OCDE corteja países emergentes

Organização quer se livrar do rótulo de ''clube dos ricos'' e acompanhar o avanço dos países em desenvolvimento

Raquel Landim, PARIS, O Estadao de S.Paulo

07 Dezembro 2009 | 00h00

A agenda do mexicano Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), há algumas semanas, incluía encontros com representantes da China, da América Latina ? incluindo o Brasil ? e da Índia. Nada incomum para o dirigente de uma organização internacional, não fosse um pequeno detalhe: esses países não são membros da OCDE.

A OCDE corteja Brasil, China, Índia, África do Sul e Indonésia para se tornarem países-membros. A instituição quer se livrar do rótulo de "clube de nações ricas" e atrair os emergentes. Mas não será uma missão fácil. Os governos resistem à adesão, pois temem comprometer sua imagem de líderes dos países em desenvolvimento.

O objetivo da OCDE é não perder importância política e econômica com o crescimento dos gigantes emergentes. A organização também quer se aproximar do G-20, que virou o principal fórum de discussão da crise global. A OCDE é uma espécie de conselheira do G-8 (grupo dos 7 países mais ricos do mundo mais a Rússia), mas assistiu ao esvaziamento do seu papel com a emergência do G-20.

Para Gurría, a definição da OCDE como grupo de países ricos é "uma caricatura equivocada". Criada em 1961, a organização possui 30 membros, como Estados Unidos, Japão e os países europeus, e representa 61,3% do Produto Interno Bruto (PIB) global. Alguns países em desenvolvimento já fazem parte, como Turquia e México. É dado como certo na entidade que o Chile será aceito como membro até o final do ano.

Desde maio de 2007, Brasil, China, Índia, África do Sul e Indonésia são considerados "enhanced countries" ? que, em português, significa algo como países com uma posição aprimorada, em vias de adesão. Ainda assim, a imagem da OCDE é de um de clube elitista e europeu. Colaboram para a percepção a sede estar em Paris e a entidade suceder a Organização Europeia para Cooperação Econômica (OECE), cujo objetivo era impulsionar o Plano Marshall, elaborado pelos EUA para ajudar na reconstrução da Europa após a 2ª Guerra.

"Hoje, países como Brasil, China e Índia têm de fazer parte de qualquer solução para as questões globais", disse Gurría. O secretário-geral afirmou que a entidade não vai insistir para que esses países se tornem membros, já que é uma decisão política dos governos, mas vai trabalhar ativamente nas regiões. Segundo ele, a OCDE planeja, em breve, ter escritórios próprios nesses países.

O esforço da entidade para atrair os emergentes está diretamente ligado à sua importância internacional. "Claramente a OCDE corre o risco de se tornar menos relevante", reconheceu o diretor do Centro de Administração e Política Tributária da entidade, Jeffrey Owens. Ele calcula que a participação da entidade no PIB mundial pode cair para 50% em 2025, caso se mantenha com os mesmos países-membros.

"Se a OCDE quiser manter seu papel internacional ? não digo nem aumentar ? vai ter de construir uma ponte com o G-20", disse o embaixador de Portugal para a organização, Eduardo Ferro Rodrigues, que já foi secretário-geral do Partido Socialista português e é líder do grupo informal de reflexão sobre o Brasil na OCDE. Ele esteve no País e conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, sobre a possível adesão brasileira. "A percepção no Brasil é que existe um namoro que pode se transformar em um casamento feliz, mas a cerimônia não é para amanhã", afirmou.

Entre as vantagens de fazer parte da OCDE está o acesso a trabalhos técnicos, feitos por mais de 200 especialistas. A organização é famosa por publicações que comparam o desempenho dos países em áreas como tributação, corrupção, meio ambiente ou emprego. Também colabora para uma melhor percepção dos mercados sobre os países, o que reduz o custos dos empréstimos para as empresas. Mas essa vantagem está em xeque para o Brasil, depois que o País conquistou a classificação de grau de investimento. Assim como outras organizações internacionais com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a OCDE também está sendo cobrada por não ter sido capaz de antecipar a crise.

A repórter viajou a convite da OCDE

FRASES

Angel Gurría

Secretário-geral da OCDE

"Países como o Brasil, China e Índia têm de fazer

parte de qualquer solução para questões globais"

Eduardo Ferro Rodrigues

Líder de grupo sobre o Brasil na OCDE

"Se a OCDE quiser manter seu papel internacional ? não digo nem aumentar ?, vai ter de construir uma ponte com o G-20"

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