Óculos do Google são início de um futuro em que os eletrônicos vão dispensar a nossa atenção

Eu vi o futuro e ele é vestível.

30 Julho 2012 | 03h10

Mas antes de falar sobre este futuro, faremos uma rápida viagem para o passado, especificamente para a metade do século 15, quando um alemão chamado Johannes Gutenberg trabalhava intensamente no seu novo invento, a máquina tipográfica.

Existe a errônea convicção de que esta invenção mudou imediatamente a sociedade. Não foi bem assim. Os primeiros livros impressos eram imensos. A cópia da Bíblia de Gutenberg que se encontra na Morgan Library and Museum, em Nova York, pesa 15 quilos. Um livro não era uma coisa que pudesse ser carregada ao fazer um passeio, para ler no banco do parque; não era para compartilhar com amigos. Ao contrário, os livros eram imóveis, e muitas vezes só eram lidos apoiados sobre uma estante. E, como a maioria das pessoas era analfabeta, somente alguns eleitos podiam lê-los.

Esses livros eram essencialmente equivalentes aos computadores de 30 anos atrás: grandes e inacessíveis para quase toda a sociedade. No início do século 16, um italiano chamado Aldus Manutius inventou o livro de bolso, e mudou a história. Manutius se deu conta de que, em vez de imprimir uma página grande numa prensa, poderia imprimir várias páginas numa única folha grande de papel, para depois costurá-las e fazer pequenos livros portáteis.

A transformação de Manutius é como a evolução até o smartphone, que na realidade é um computador bem pequeno.

Continuando nossa lição de história, outra grande mudança ocorreu no final do século 19, com a invenção do cinema, que permitiu contar uma história visualmente e numa escala de público antes inimaginável.

O equivalente desse momento, de uma tecnologia que funcione independentemente de idade, educação, escolaridade ou inteligência, está acontecendo agora com o advento da computação "vestível". Estas tecnologias que são vestidas, como os óculos do Google que projetam informações exatamente no lugar onde a pessoa olha, terão o mesmo efeito nos smartphones e computadores que o cinema teve em relação aos livros.

Todas estas coisas têm uma característica comum - um objetivo que ajudou a introduzir novas tecnologias desde que o ser humano começou a rabiscar desenhos nas paredes das cavernas: contar histórias. Contar histórias para transmitir informação e estabelecer a comunicação.

A forma mais completa de comunicação se dá quando "a tecnologia sai do caminho", como disse Sergey Brin, um dos fundadores do Google, no congresso anual de desenvolvedores, em junho. Ele fez este comentário durante uma demonstração do Project Glass, os óculos inventados pela companhia. Olhando uma pessoa, os óculos contarão sua história de trabalho. Olhando para um marco histórico, poderão explicar sua importância.

Tive uma rápida oportunidade de experimentar estes óculos do Google e a experiência foi tão fascinante como quando vi o iPhone da Apple pela primeira vez.

A tela do Project Glass fica numa posição lateral, clara e discreta. O usuário interage só quando precisa. Quando recebe um e-mail ou uma mensagem de texto, pode olhá-la se quiser, ou simplesmente ignorá-la. Não é como se um sinal vermelho de trânsito se acendesse na sua cara a cada nova mensagem.

Obviamente, os óculos do Google têm problemas específicos. Por exemplo, custam US$ 1.500, por uma pré-encomenda especial. E mesmo que eu estivesse passeando feliz usando estes óculos, minha irmã e a maioria dos leitores provavelmente diriam: "Não, obrigado. É muito nerd para mim."

Mas tudo isto mudará.

Sergey Brin disse que os óculos mudaram a maneira como ele posta suas atividades. "De repente eu me vi usando imagens para responder às mensagens de texto ou e-mails que me perguntavam o que eu estava fazendo."

E contou que um dia estava brincando com o filho Benji jogando-o para o alto com ambas as mãos e apanhando-o em seguida. O Google Glass fotografou e documentou o momento. "Nunca poderia ter feito isto com um smartphone ou uma câmera", disse Brin. Não havia mais ninguém por perto.

A tecnologia está ali, mas mal aparece.

E a questão é justamente esta. Quando a tecnologia "sai do caminho", ficamos livres dela. A computação vestida nos libertará da necessidade de ficar espiando a vida através de uma tela de 10 centímetros. Não precisaremos mais olhar constantemente os nossos dispositivos, ao contrário, estes dispositivos portáteis olharão para nós. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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