Olhe bem para Julia

Muito antes do advento dos aparelhos de GPS ou do Google Maps, os aficionados por comida já haviam desenvolvido o próprio sistema de localização de ruas. Funciona de forma simples: em vez de avenidas principais ou prédios públicos, os restaurantes são os pontos de referência. Um exemplo? A Araçari, uma via pequena e movimentada do Itaim-Bibi, entrou no meu mapa mental por causa de lugares já extintos, como o Marie, de vida breve, e especialmente o Supra. E permanece nele por causa do Julia Gastronomia. O ponto de número 200, curiosamente, parece ter uma marca feminina. Já pertenceu ao bistrô Marie, de Marie-France Henry, do La Casserole. Em 2003 virou o Julia Cocina, criado por Paola Carosella. E, desde o ano passado, abriga o Julia Gastronomia, comandado pela restauratrice Anayde Lima. A metamorfose do Julia original para o atual foi sem viradas de mesa, sem radicalismos. Alguns pratos permaneceram no cardápio, outros foram modificados e concebidos com a participação da chef Ana Soares. A linha mestra se manteve: sabores definidos, potencializados pelo forno a lenha, produtos frescos, execuções pouco rebuscadas. O cardápio é conciso e atraente, simples sem ser banal. Entretanto, ainda que os preços sejam altos e a Araçari não esteja em seus dias mais efervescentes, isso não justificaria tão pouca gente no salão - o que pôde ser constatado nas duas últimas visitas. Na última incursão, era o fim de semana de um feriado prolongado, o que sempre esvazia um pouco a cidade. Mas é intrigante que uma cozinha boa assim passe despercebida. Não fosse pelo sal - um microponto abaixo do que deveria ser, em praticamente todos os pedidos -, eu diria que foi tudo muito bem em meu almoço, composto assim. De entrada, pastéis assados (R$ 12), com massa bem crocante, entre os quais o de pato com cogumelo é o mais retumbante, e um tenro palmito pupunha, feito também no forno a lenha. Entre os pratos, o fetuccine picante com frutos do mar (R$ 52) foi o mais exuberante, ainda que o polvo com vegetais (R$ 48) e o cordeiro na lenha (R$ 51, servido com polenta) também não ficassem muito atrás em robustez. Mas não é comida pesada, o que é um dado importante. A sobremesa, nuvens crocantes com creme inglês ao café (R$ 10), já não foi tão bem - uma variação sobre a île flotante, inferior à original. As frutas assadas (sim, também na lenha, R$ 11) com queijo cremoso são melhor escolha. Na saída, a tranquilidade só era quebrada por manobristas de restaurantes da R. Adolfo Tabacow, que dirigiam perigosamente de marcha à ré (eu fui conferir até onde eles levavam os carros). Parafraseando o Guia Michelin - e a expressão combina com o traçado algo curvilíneo da rua -, o Julia continua valendo o desvio pela Araçari. JULIA GASTRONOMIA R. Araçari , 200, Itaim-Bibi, 3071-1377 12h/15h e 20h/0h (sáb. 12h/16h e 20/1h; 2ª a 4ª, só almoço; 6ª, até 1h; fecha dom.) Cartões: todos Cardápio: de perfil contemporâneo. Avaliação: comida para mastigar, no bom sentido, com sabores definidos e gosto de forno a lenha.

Luiz Américo Camargo,

07 Maio 2009 | 09h25

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