OMS aprova criação de estratégia para conter abuso de álcool

Governos confirmaram ao 'Estado' que as empresas de bebidas fizeram lobby nos últimos dias na ONU

Jamil Chade, especial para O Estado,

22 de maio de 2008 | 10h47

Sob pressão das empresas de bebidas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprova a abertura de negociações para a criação de uma estratégia mundial para controlar o abuso no consumo de álcool. A aprovação foi seguida de perto na quarta-feira, 21, em Genebra pelas fabricantes de bebidas, inclusive a Inbev, que enviou representantes brasileiros para a reunião. O Itamaraty e outros governos confirmaram ao Estado que as empresas fizeram lobby nos últimos dias nos corredores da ONU.   A OMS alerta que o consumo de álcool nos últimos anos aumentou de forma significativa, promovendo a alta de algumas doenças. Segundo a entidade, o álcool gera por anos 1,8 milhão de mortes e, nas Américas, a situação é uma das mais graves do mundo.   Grande parte do crescimento no consumo vem ocorrendo nos países emergentes e o Brasil é alvo de preocupação dos especialistas da OMC. Segundo estudos da entidade, o Brasil está classificado entre os países mais problemáticos em termos de abuso no uso das bebidas.   De acordo com os dados oficiais da OMS, o consumo de bebidas nas Américas é 50% superior à média mundial. Os dados são resultado de uma pesquisa feita pelos médicos Jürgen Rehn, do Centre for Addiction and Mental Health, de Toronto, e da brasileira Maristela Monteiro, da Organização Panamericana de Saúde. México, Estados Unidos e Colômbia se destacam como alguns dos mais problemáticos. Nas Américas, a bebida já um fator de risco maior que o tabaco.   Mesmo assim, o governo dos Estados Unidos foi um dos que mais se opôs à resolução. Por influência das empresas e de certos países, a resolução não toca em temas como cobrança de maiores impostos nem proibições de locais de vendas.   O Itamaraty considerou a resolução como "fraquíssima" e culpou a falta de entendimento entre os países pelo resultado. "A resolução mostrou que ninguém está preparado para lidar de frente com o assunto", afirmou um diplomata. O governo confirmou que foi contactado pela indústria para saber qual seria a posição do Itamaraty na votação.   Um dos pontos principais da resolução é de que uma estratégia não será necessariamente aplicada em qualquer parte do mundo e que as diferenças entre os hábitos dos países serão respeitados.   Não por acaso, a entidade que reúne as 16 maiores produtoras de bebidas do mundo se apressou para elogiar a resolução. "A resolução é equilibrada e construtiva, já que reconhece a importância de diferenças nacionais, de religião e culturais entre países. Ela ainda sugere uma estratégia global que governos irão adotar de acordo com sua cultura e necessidades", afirmou a Global Alcohol Producers Group, da qual faz parte a Inbev.   O grupo garante que está disposto a ajudar na formulação das estratégias. O temor das empresas é de que a OMS passe a tratar do álcool da mesma forma que o fez com o tabaco, criando duras leis contra o fumo.

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