OMS liga uso de celular a ''possível'' risco de câncer

Análise feita por 31 cientistas de 14 países classifica exposição à radiação no grupo de risco dos pesticidas, mas é inconclusiva e pede mais estudos

Gustavo Chacra,

01 Junho 2011 | 12h23

CORRESPONDENTE / NOVA YORK

A radiação eletromagnética associada ao uso do celular foi classificada como "possivelmente carcinogênica" e deve ser alvo de mais estudos, segundo avaliação da agência da Organização Mundial da Saúde responsável pelo estudo do câncer (Iarc, na sigla em inglês).

A conclusão foi divulgada por 31 cientistas de 14 países reunidos em Lyon, na França, para revisar centenas de pesquisas sobre o risco de usar os aparelhos.

A avaliação, cujos detalhes serão publicados na edição de julho da prestigiada revista científica Lancet, reverte, ainda que não oficialmente, posição anterior da OMS de que não há evidências de que o uso do celular provoque câncer. De acordo com o grupo, a exposição ao celular deve ser incluída como fator de risco 2B.

No grupo 2B estão incluídos agentes "possivelmente" cancerígenos, como alguns produtos químicos de limpeza, pesticidas e chumbo. Esse patamar oferece risco inferior ao grupo 1, no qual as substâncias são certamente cancerígenas, e 2A, com "provável risco para seres humanos".

"A evidência foi revisada criticamente e avaliada como limitada entre os usuários de celulares para glioma e neuroma (tumores no cérebro), mas inadequada para conclusões sobre outros tipos de câncer", diz o comunicado da Iarc. O grupo de trabalho, diz o texto, não quantificou o risco, mas salientou que uma pesquisa no passado sobre uso de celulares, até o ano de 2004, mostrou um crescimento de 40% no risco de glioma na categoria dos usuários mais frequentes de celular - cerca de 30 minutos por dia ao longo de dez anos.

"As evidências, embora ainda estejam sendo acumuladas, são fortes o suficiente para indicar a classificação como 2B. Essa conclusão significa que pode haver algum risco e, portanto, precisamos prestar atenção entre a relação do uso de celulares e o risco de câncer", disse Jonathan Samet, da Universidade do Sul da Califórnia, que presidiu o grupo de estudo da OMS.

Christopher Wild, da Iarc, disse ser "importante que mais pesquisas sejam conduzidas para saber das consequências do uso no longo prazo".

Em comunicado, a associação dos fabricantes de celular disse apenas que "a classificação da Iarc não afirma que celulares causem câncer". Todos os órgãos reguladores dos Estados Unidos seguem na mesma linha, assim como entidades como a Sociedade Americana de Câncer e o Instituto Nacional do Câncer. Muitos pesquisadores dizem há anos que é impossível os celulares provocarem câncer. Os aparelhos, segundo especialistas, produzem ondas de radiação não ionizada que são muito fracas para causar danos no DNA que gerem tumores malignos.

Ao todo, 5 bilhões de pessoas usam celulares. Os aparelhos são difundidos até mesmo nas regiões mais pobres da África e da Ásia. Uma das dificuldades dos pesquisadores é conseguir um grupo de controle de não usuários para comparar com os de uso frequente, como ocorre em outros produtos.

No ano passado, uma pesquisa da própria OMS disse não ter havido "aumento nos casos de glioma ou meningioma" entre os usuários de celular. A conclusão foi de que usuários moderados de celular teriam até um risco menor de desenvolver tumores no cérebro que as pessoas que não os utilizam.

Dúvida

JONATHAN M. SAMET

EPIDEMIOLOGISTA QUE LIDEROU A REVISÃO DE ESTUDOS

"Observamos com cuidado os fenômenos físicos pelos quais a exposição a tais campos possa perturbar sistemas biológicos e levar ao câncer. Achamos indícios de evidências sobre como o câncer pode ocorrer, mas há incertezas."

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