Onde fica Tripla cidadania, técnica apurada

Muito tem se comentado sobre o polo gastronômico da Rua dos Pinheiros. A movimentação de casas e chefs começou na década passada (não incluo aqui pioneiros como a Vinheira Percussi), ficou intensa nos últimos anos e segue em plena atividade. Em meio a uma considerável variedade de estilos, o estabelecimento gastronomicamente mais relevante dos arredores me parece justamente um dos menos badalados. Eu me refiro ao Miya, no início da Rua Fradique Coutinho - trecho que foi de difícil circulação durante um longo período por causa das obras do metrô.

EU SÓ QUERIA JANTAR, LUIZ AMÉRICO CAMARGO, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2014 | 02h07

Numa primeira fase - falo por uma percepção muito pessoal - o Miya talvez estivesse em busca de uma identidade. Deveria ser gastronômico ou mais casual? Qual o tamanho de suas pretensões? Era algo que se refletia em certa frieza técnica na cozinha e num discurso cansativo no salão, com garçons presentes demais. Agora, aos dois anos, a casa se mostra mais segura na condição de um pequeno restaurante autoral, mais convicta de suas criações. E com um serviço mais empenhado em atender com cordialidade do que em explicar, embora levemente confuso.

Com pratos bem executados e um consistente arco de influências, o restaurante é, mais do que nunca, a expressão de seu chef e proprietário, Flávio Miyamura, que trabalhou no D.O.M., comandou o Eñe e nunca se desconectou de suas raízes nipônicas. O menu atual, entre novidades e pratos já mais conhecidos, traduz esse espírito eclético - que, por outro lado, nada tem de indeciso. Exemplos? Entradas como a berinjela chamuscada com pasta de missô (R$ 21) e o caldo de karê com legumes, disponível eventualmente no menu do almoço. Principais como o leitão assado com purê de batatas (R$ 68) e o arroz com frango caipira, chorizo e ervilha torta (R$ 47), profundos de sabor e valorizando a essência de cada receita.

Flávio Miyamura, entretanto, trata os pescados notadamente bem. Tem noção de ponto, de textura, sabe extrair o que há de particular em cada variedade. Seja valorizando a carne firme, porém delicada, do namorado, servido na boa caldeirada do cardápio executivo; ou, especialmente, no vermelho com escamas crocantes, acompanhado por riso al salto, o risoto compactado e salteado. (O peixe é preparado com a técnica espanhola de verter a gordura quente sobre o lado da pele, trincando as escamas instantaneamente.) Em resumo, é um lugar para se comer bem, num ambiente tranquilo - e curiosamente menos aclarado pelos holofotes da cena gastronômica da Rua dos Pinheiros.

Por que este restaurante?

Pela boa cozinha do chef Miyamura, de matriz contemporânea com ecos japoneses, espanhóis e valorização de ingredientes brasileiros.

Vale?

O almoço executivo, que custa R$ 45, é caprichado e as sugestões variam. Pelo cardápio, a refeição fica em torno de R$ 100, sem bebidas. Já a carta de vinhos é pouco atraente e cara - especialmente no caso dos rótulos mais simples. Vale.

Miya

R. Fradique Coutinho, 47, Pinheiros, 2359-8760. 12h/15h e 19h/0h (6ª, até 0h30; sáb., 13h/16h e 20h/0h30; dom., 13h/17h; fecha 2ª). Cc.: todos.

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