Onde foram parar os neuróticos?

Os cientistas que definem distúrbios mentais fatiaram a neurose em pedaços mais finos

BENEDICT , CAREY, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2012 | 03h04

Artigo

Alguns arquétipos culturais saem do palco com um floreio, outros pisando firme. Os colonialistas de capacete, os poetas chapados por absinto e os gurus hippies fundadores de utopias nos anos 1970 fizeram algum barulho, nem sempre algum sentido, antes de serem engolidos pela história. Mas um tipo moderno está seguindo para o passado sem estardalhaço, sem até sua familiar lamúria - o neurótico.

Para uma geração de americanos do pós-guerra, ser neurótico significava mais que ser ansioso, e era diferente de exibir a histeria ou outros problemas de transtorno de humor para os quais Freud usou o termo. Significava ser interessante numa época em que a psicanálise reinava em meios intelectuais e Woody Allen reinava nos cinemas.

O fato de ele pouco significar hoje em dia é uma evidência da força com que a linguagem impulsiona a percepção da batalha mental, tanto suas fontes como suas curas. Nos últimos anos, os psiquiatras desenvolveram um vocabulário especializado para descrever a ansiedade, o componente central da neurose, e o público ganhou uma maior percepção de suas muitas dimensões.

No processo, contudo, perdeu-se o romantismo da neurose, além de sua concretização - a presença incessante, queixosa, carente que um dia funcionou na mente coletiva como uma voz interior que protegia contra o excesso de otimismo. Na era atual, o neurótico seria uma companhia nervosa para dias nervosos, pronto a oferecer doses de melancolia urbana hilariante.

"Eu ainda uso o termo de vez em quando, mas ele não diz muito", diz Barbara Milrod, professora de psiquiatria no Weill Cornell Medical College. "Temos maneiras mais específicas de descrever comportamento de inadaptação."

Algumas razões para "neurótico" ter caído em desuso na linguagem coloquial são óbvias. A análise freudiana perdeu seu domínio sobre o imaginário comum, assim como na psiquiatria, e parte da linguagem de Freud perdeu o poder.

Os cientistas que definem distúrbios mentais fatiaram a neurose em pedaços mais finos, como distúrbio do pânico, ansiedade social e transtorno obsessivo-compulsivo - todos termos que caíram no uso das pessoas comuns, para não mencionar os grupos de usuários online, letras de rock e programas de TV.

Em 1994, após um debate áspero com psicanalistas, os médicos que compilavam o Manual de Diagnóstico e Estatística, a enciclopédia da psiquiatria, tiraram a neurose do livro. "Com o que sabemos hoje o termo parece obsoleto", diz Michael First, pesquisador de Columbia e ex-editor do manual. "Com o declínio geral da importância de Freud em nossa sociedade, o termo foi ficando anacrônico."

Mesmo assim, o desejo de precisão e o declínio do pensamento freudiano não explicam por completo o desaparecimento do neurótico. Os psiquiatras não moldam a linguagem que usamos, afinal - nós todos o fazemos - e neurose tem ao menos tanta aceitação quanto outros termos freudianos duráveis, como ego e id.

A resposta pode residir em uma área na qual o espírito do neurótico continua vivo: a pesquisa psicológica. O "neuroticismo" é uma das "dimensões" do modelo de personalidade. Ele é medido com um questionário simples, no qual as pessoas reagem a declarações como "Eu me irrito facilmente" e "Eu me aborreço com coisas". Muitos desses questionários não mudaram em adultos desde os anos 1950. Mas estudos revelaram que, entre universitários, os níveis de neuroticismo aumentaram até 20%.

Internet. A mudança cultural pela qual passamos pode explicar os números. Hoje, jovens são inundados por confissões pessoais e pela disponibilidade cada vez mais pública de quase todo pensamento - via Facebook, Twitter e outras mídias sociais. Se a postagem crônica em Facebook e Twitter não é um exercício de neurose, então não é nada.

Além disso, características atribuídas a neuróticos foram normalizadas, diz Peter N. Stearns, historiador da Universidade George Mason em Virginia. "Nos tornamos tão acostumados a pessoas com preocupações constantes que isso ficou obsoleto."

O neurótico clássico continua entre nós, claro - mas com mais companhia. Mais razão, segundo Stearns, para preservar essa palavra que amplia a definição de normal no melhor da tradição americana - preserva a privacidade, num momento em que pode ser muito importante fazê-lo.

O historiador Edward Shorter argumenta que em alguns casos, como desconectar distúrbios de ansiedade da depressão, a precisão falha. Tristeza e preocupação são parceiras íntimas para muitas pessoas que visitam psiquiatras, e os medicamentos conhecidos como antidepressivos são amplamente receitados para ansiedade também.

O termo neurose abarca a ambos e precede Freud em um século. Ele se referia originalmente a um problema dos nervos, não da mente, em contraste direto com "psicose", que implica uma ruptura do pensamento lógico característico da esquizofrenia. "Perdemos essa visão de doença nervosa como uma doença do corpo inteiro, e agora a chamamos de transtorno do humor", disse Shorter. "Dizer às pessoas que elas têm um transtorno do humor as faz pensar que está tudo na cabeça, quando, na verdade, o sentem em seu corpo."

Honestamente, quem não se atiraria na chance de ter perspectivas menos danosas? Isso significa mais um voto para neurose como um estado mental ao qual podemos confiavelmente retornar em tempos estranhos - se não no tratamento psiquiátrico, ao menos entre amigos e colegas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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