Onde gado e floresta não brigam

Em Uberaba (MG) e Guararapes (SP), pecuaristas provam que é possível preservar e até melhorar o meio-ambiente

Niza Souza, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2008 | 03h05

Há mais de 50 anos o pecuarista José Luiz Niemeyer começou um trabalho de preservação em sua fazenda, em Guararapes (SP). Recuperou nascentes, reflorestou área de reserva legal e, o mais importante, segundo ele, conscientizou funcionários e moradores sobre a importância da preservação. Tudo sem deixar de produzir alimentos, com lucro. Veja também:Adotar tecnologia é essencial para preservarManejo ecológico também no leiteHoje, a Fazenda Terra Boa é um exemplo de que é possível e viável o Brasil continuar produzindo cada vez mais alimento sem degradar o meio ambiente. Não à toa, o tema da Expozebu este ano, que terminou no sábado, em Uberaba (MG), foi a pecuária sustentável. ''Resolvemos tratar da sustentabilidade porque é o tema do momento. Temas como aquecimento global preocupam. A pecuária não é a vilã, a grande responsável por isso, mas o assunto tem de ser discutido'', argumenta o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), José Olavo Borges Mendes. Ele admite, porém, que ainda há criadores que degradam matas e florestas. ''Não há uma fórmula mágica que resolva o problema. O ponto de partida é a conscientização.''NOVO DESAFIOApós os ganhos crescentes de produtividade e qualidade, o domínio tecnológico e a profissionalização, a nova fronteira a ser conquistada pela agropecuária, acredita Mendes, é a sustentabilidade. ''Temos de ter capacidade de suprir as necessidades imediatas de alimentos e matérias-primas sem comprometer o futuro do planeta e das próximas gerações'', diz Mendes.A Fazenda Terra Boa, por exemplo, tem mais de 1.800 hectares de área e conquistou importantes certificações: a ISO 14001, de gestão ambiental, e a GlobalGap (antiga EurepGap), que garante que a produção é realizada com o mínimo de impactos negativos de operações agrícolas no meio ambiente, redução do uso de insumos químicos e garantia de uma abordagem responsável dos assuntos de saúde e segurança dos empregados e saúde animal. ''Em 1957 ganhei um prêmio regional de conservação, quando ninguém ainda falava em preservação ambiental'', diz Niemeyer. ''Isso não é só cuidado. Acho que é uma obrigação. Todas as ações que adotamos aqui, desde a preservação de APPs até tratamento de esgoto, coleta de lixo reciclável e treinamento de brigada de incêndio, torna melhor a qualidade de vida de todos.'' Além da pecuária, com cerca de 2.500 animais abatidos por ano e 350 cabeças de gado PO, Niemeyer produz cana e grãos, em sistema de rotação. ''Prefiro produzir a cana e não arrendo a terra para usina, justamente para garantir o manejo correto.''ÁGUAAs lavouras e a pastagem, ressalta, são plantadas longe das margens dos rios, que foram cercadas para evitar o acesso dos animais. Nessas áreas, há apenas a vegetação nativa, para conservar o solo e evitar erosão e assoreamento. ''Planto 40 mil mudas por ano de nativas para reflorestar as áreas de preservação. Daqui a alguns anos essas árvores formarão um corredor ecológico para aves e outros animais.''Todos esses cuidados podem não dar lucro imediato, mas o produtor diz que, ''a longo prazo, a natureza retribui''. Além disso, algumas empresas também já começam a recompensar produtores como Niemeyer. ''O frigorífico me paga um bônus de 3% no valor da arroba por causa da certificação GlobalGap'', afirma.Na Fazenda Sussego, a apenas 7 quilômetros do centro de Uberaba (MG), a paisagem surpreende. Todas as nascentes são cercadas e têm uma grande faixa de mata ciliar no entorno. ''Só de cercar as nascentes, para que o gado não tenha acesso, a gente já percebe a natureza se recompor naturalmente'', diz o criador de gado de corte da raça brahman Gabriel Prata Rezende.Na fazenda, de 100 hectares, também há alguns bolsões para conter a água da chuva. Para ele, preservar a água, ''que vale mais do que qualquer combustível'', é uma das grandes preocupações dos pecuaristas. Além das áreas de reserva legal, Rezende também faz questão de manter diversas árvores no pasto, que dão sombra ao gado. ''É a preocupação com o bem-estar do animal.''   

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