ONU leva brasileira do Afeganistão ao Timor Leste

Missão de Monica Villarindo é recrutar voluntários para atuar na missão da ONU.

Fernanda Nidecker, BBC

28 de março de 2008 | 07h20

A brasileira Monica Villarindo, de 43 anos, ainda se lembra do dia em que decidiu trocar a vida confortável em Brasília para se tornar uma das coordenadoras do programa de voluntariado das Nações Unidas em países em situação de risco. "Eu senti naquela hora que esta era a minha missão. Eu estava bem no Brasil, mas acredito que as melhores oportunidades acontecem quando saímos da nossa zona de conforto e exploramos outros horizontes. Nunca me arrependi da decisão", disse Monica, que deixou o marido em Brasília ao embarcar, no início de 2006, para o Afeganistão.Depois de passar dois anos em Cabul recrutando voluntários para atuar nas 19 agências da ONU presentes no país, Monica foi transferida para o Timor Leste, onde chegou há um mês e meio. Lá, ela também é responsável por recrutar voluntários para atuar na missão da ONU, presente no país desde 1999. LiberdadeDiferentemente da vida que levava no Afeganistão, onde os riscos de atentado impunham uma rotina que se resumia a ir "de casa para o trabalho e do trabalho para casa", ela conta que ao chegar ao Timor Leste "não sabia o que fazer com tanta liberdade"."Eu tive um pouco de choque cultutral porque, aqui, a gente é livre. Na primeira semana, nem sabia como agir", contou à BBC Brasil.Mas a alegria durou pouco. Uma semana após chegar a Dili, o presidente timorense, José Ramos-Horta, sofreu um atentado que quase lhe tirou a vida e levou à imposição de um estado de sítio no país, que só agora começa a ser relaxado.Ela contou que, até a semana passada, ninguém saía na rua das 22h às 6h, sob o risco de ser preso. Mas amenizou a situação, dizendo já ter "vivido coisa muito pior".Livre do véu que tinha de usar no Afeganistão para cobrir a cabeça e de outras imposições da religião muçulmana, ela, agora, pode dirigir sozinha e circular livremente pela cidade. "Em Cabul, morava a cinco minutos do trabalho e só podia me locomover de carro com motorista. Até para ir ao supermercado tinha um motorista me esperando na porta".Semelhanças com o BrasilAinda assim, a vida no país mais pobre da Ásia - que, após se tornar independente da Indonésia em 2002 ainda sofre com a instabilidade política - impõe riscos à segurança.Monica contou que assaltos a casas e carros são muito freqüentes, uma realidade que compara à das cidades brasileiras."Tenho um segurança na porta de casa 24 horas por dia e todas as janelas têm grade. Não dá pra dar bobeira", disse.Mas são as semelhanças entre Timor e Brasil que mais encantam a carioca. "O Timor é um país tropical, como o Brasil, tem praia e ainda tem uma estátua parecida com o Cristo Redentor, chamada Cristo Rei. Fica também no alto de um morro, mas de frente para o mar", disse.Além do clima, há ainda o idioma. O país ficou sob domínio português até 1975, quando foi invadido pela Indonésia, e parte da população fala a língua."É otimo poder conversar com as pessoas em português. Sei que há muitos brasileiros aqui, desde professores, juízes a profissionais da área do petróleo ajudando na reconstrução do país". Ela contou que, no Timor Leste, a ONU tem um papel fundamental ao ajudar o país a melhorar diversas áreas da infra-estrutura, como educação e saúde."Eu sinto que esta é a minha contribuição para o mundo, mostrar como o voluntariado pode fazer uma grande diferença para as sociedades que estão tentando se levantar". VocaçãoInsatisfeita com a vida profissional que levava como administradora de empresas nos Estados Unidos, onde morou durante 14 anos, Monica descobriu a vocação para trabalhar em missões humanitárias ao fazer um curso de auto-ajuda.Ela pediu demissão da empresa onde trabalhava e decidiu unir-se à equipe de voluntários da Cruz Vermelha, na Flórida. Logo depois dos ataques terroristas em setembro de 2001, já como funcionária da organização, foi transferida para Nova York, onde passou meses chefiando o recrutamento de voluntários da ONG para ajudar as vítimas dos atentados. A missão da brasileira no Timor Leste terá duração de pelo menos um ano, mas ela espera renovar o contrato. Do futuro, ela espera poder continuar passando por países onde haja espaço para atuação de voluntários da ONU. Ao ser indagada sobre o medo de morrer, a brasileira responde com firmeza."Não tenho medo de morrer, mas, se isso acontecer, sei que vou morrer feliz porque amo o que faço, sei que esta é a minha missão e vivo a minha vida da melhor forma possível". BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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