Oposição frágil favorece projetos de traço populista

Alta popularidade de Evo também contribui para o programa de construção de uma 'nova Bolívia'

Renata Miranda, O Estadao de S.Paulo

06 Dezembro 2009 | 00h00

O atual cenário político da Bolívia favorece amplamente o presidente Evo Morales. A alta popularidade do primeiro indígena boliviano eleito presidente - aliada à falta de uma oposição articulada - faz de Evo o favorito para as eleições de hoje e o ajudam a consolidar seu projeto político de "refundação" da Bolívia.

"A alta popularidade de Evo é uma combinação de vários fatores, mas, em especial, é por causa do esgotamento dos partidos tradicionais", afirmou ao Estado, por telefone, o analista Fernando Mayorga, da Universidade Pública de Cochabamba. "A força do presidente tem como base as organizações sociais porque a maioria de suas políticas foram desenhadas para beneficiar os setores mais excluídos da sociedade."

Evo - um dos grandes aliados do presidente venezuelano, Hugo Chávez - afirma que precisa de mais tempo no poder para distribuir entre os pobres os lucros obtidos com a exploração dos recursos naturais do país. Meses depois de assumir o governo, em 2006, o presidente surpreendeu os investidores externos ao nacionalizar o setor de hidrocarbonetos.

De acordo com analistas, a decisão de Evo, apesar de ter lhe rendido popularidade, prejudicou a economia boliviana, tornando-a dependente de um único setor. "Foi um regresso ao modelo econômico dos anos 30, quando 80% de nossa economia dependia dos recursos naturais e apenas 20% eram destinados a outros tipos de produto", explicou o economista e cientista político Gonzalo Chávez, da Universidade Católica da Bolívia.

A falta de investimento nessas empresas, segundo o especialista, também foi ruim para o desenvolvimento econômico. "Mesmo assim, ainda há possibilidade de novas nacionalizações em um novo mandato de Evo, uma vez que isso alimenta sua popularidade", disse Chávez.

Pesquisas dão ao presidente 55% das intenções de voto, enquanto seu principal rival, o capitão da reserva Manfred Reyes Villa, tem 18%. Em terceiro lugar, vem o empresário Samuel Doria Media com 10%.

LAÇOS BOLIVARIANOS

A amizade com o presidente Hugo Chávez também teve um papel importante durante o governo de Evo. A "irmandade revolucionária" compartilhada pelos dois, além dos milhões de dólares enviados a Evo por Chávez, deu munição para que os críticos do presidente acusassem a Venezuela de ingerência em assuntos internos.

"Para a Venezuela é muito importante manter Evo no poder", ressaltou o cientista político Carlos Cordero, da Universidade Mayor de San Andrés. "Evo é o principal aliado de Chávez na região e, se ele sair do poder, o presidente venezuelano corre o risco de ficar isolado no continente."

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