Orações e protestos se misturam no caminho do papa pelos EUA

Fundamentalistas protestantes desfilavam de megafone em punho alertando que os católicos vão para o inferno

ANDY SULLIVAN, REUTERS

16 de abril de 2008 | 18h46

Cânticos e orações dos fiéis se misturaram na quarta-feira as gritos de "anticristo" diante da passagem da comitiva do papa Bento XVI pelas ruas de Washington. Milhares de católicos de todo o país, dançando e tocando instrumentos, esperaram durante horas para ver o papa saindo da Casa Branca, após um encontro com o presidente George W. Bush. "Ver o papa, tentar conseguir uma bênção, eram coisas muito fortes no meu coração", disse Carolyn Ehli, de Moore, Estado de Oklahoma, que segurava uma grande imagem da Virgem Maria enquanto manobrava sua cadeira de rodas para ver melhor a cena. Mas nem todos vieram louvar o papa. Fundamentalistas protestantes desfilavam de megafone em punho alertando que os católicos vão para o inferno. Outros manifestantes levavam cartazes nos quais acusavam a Igreja de dar abrigo a pedófilos. A canadense Axel Poessy disse que Bush deveria prender Bento XVI por abuso infantil, ou não aceitá-lo nos EUA. Ela afirmou que o voto de celibato dos padres os leva a se aproveitar de crianças. "Se você se abstém de sexo, ativa seu corpo para que queira ainda mais [fazer sexo]", disse Poessy. O protesto contra os abusos sexuais cometidos pelo clero reuniu cerca de 200 pessoas perto da Casa Branca. Na véspera, a caminho dos EUA, Bento XVI se disse "profundamente envergonhado" pelo escândalo, que surgiu em 2002 e manchou a imagem da Igreja nos EUA. Ray McIntire, participante de um grupo de homens com cartazes que comparavam a Igreja a Satã, chamava o papa de "anticristo". "É uma religião falsa. Acho que eles cultuam ídolos. Cada uma dessas pessoas que está aqui hoje para cultuar o papa está perdida." Mas os alertas de McIntire eram sempre sufocados pelos cantos e batuques da multidão latina. Muitos ambulantes vendiam camisetas e broches com a imagem do papa. "Doamos parte, não tudo, à Igreja. Tenho muitos filhos e netos, mas a Igreja tem de ficar com algo", disse o vendedor Joe Rivera. Entre os fiéis, muitos louvavam Bento XVI por sua rigidez doutrinária numa época de relativismo moral. Vários falavam da sua dificuldade em conciliar as posturas católicas com a vida política, já que a Igreja defende questões que agradam tanto à direita (combate ao aborto e a pesquisas de células-tronco) quanto à esquerda (oposição à guerra do Iraque e combate à pobreza). "Isso às vezes dificulta para os católicos votarem", disse a freira Maria Theotokos, da ordem das Servas de Jesus em Washington. Maura Doman, da vizinha Virgínia, disse apoiar "com relutância" o republicano John McCain. "Há muitas coisas com as quais a gente se importa que não estão ligadas a nenhum candidato. É desanimador", disse. Art Laffin, que vive em Washington, disse esperar que Bento 16 peça a Bush o fim da guerra do Iraque. "Acreditamos que a guerra é pecado, que tortura é pecado. Rezamos para que o papa possa transmitir isso."

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