Ornitorrinco: a história de uma trupe

Livro revê os 30 anos de existência do grupo fundado pelo trio Cacá Rosset, Luiz Roberto Galízia e Maria Alice Vergueiro

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

30 de novembro de 2009 | 00h00

Do porão do Oficina com Strindberg e Brecht aos palcos de Nova York com Shakespeare. Aos completar 32 anos de existência, o Teatro do Ornitorrinco fundado em 1977 pelo trio Cacá Rosset, Luiz Roberto Galízia e Maria Alice Vergueiro tem sua trajetória revisitada numa publicação diferenciada da Imprensa Oficial: um livro de 524 páginas, em grande formato, com vasto material iconográfico e documental - fotos, programas de peças, reproduções de críticas e reportagens publicados na imprensa do Brasil e do exterior, desenhos de figurinos, croquis de cenografia e até ingressos e bilhetes escritos à mão pelo diretor Cacá Rosset.

Organizado por uma de suas principais atrizes, Christiane Tricerri, fiel representante do espírito irreverente que sempre marcou o Ornitorrinco, o volume refaz cuidadosamente, passo a passo, os caminhos da trupe, por meio de depoimentos ao jornalista Guy Corrêa de dezenas de artistas ligados de forma perene ou transitória ao grupo, entre eles Cacá Rosset, Maria Alice Vergueiro, Christiane Tricerri, Rosi Campos, José Rubens Chachá, José de Anchieta, Eduardo Silva, Victor Nosek, Rubens Caribé, Tereza Freire e Mônica Monteiro. Sem contar perfis que vêm à tona de artistas precocemente mortos, como Luis Antônio Martinez Corrêa, Chiquinho Brandão e o fundador Galízia.

O panorama dos palcos da época do surgimento da trupe, a década de 80, com seus experimentos formais; as primeiras experiências musicais no porão da trupe; o choque provocado por sua estética irreverente num período de abertura política bem mais lenta do que o desejado; os escândalos provocados pela nudez até no exterior; o processo democrático de criação - Cacá Rosset é descrito por todos como alguém capaz de estimular e absorver a criatividade de toda sua equipe - são aspectos abordados, entre muitos outros, em depoimentos que redesenham, cronologicamente, os 30 primeiros anos da história, ainda não encerrada, dessa companhia.

Que o leitor não espere o distanciamento crítico dos analistas. São experiências lembradas com intensidade de memória viva e envolvimento de criadores apaixonados. A ação do tempo tem o efeito de filtrar para o leitor os episódios de mais atraentes, ora por representarem saltos de qualidade, ora pelos problemas acarretados. Quem acompanhou o grupo, desde os cabarés brechtianos no porão do Oficina, passando pelo estrondoso sucesso que foi a montagem do Ubu, de Jarry; O Doente Imaginário, de Molière, ou o Sonho de Uma Noite de Verão, que estreou em Nova York, até montagens mais recentes como Scapino e O Marido Vai à Caça, certamente vai reviver emoções experimentadas na plateia - jamais passiva nos espetáculos dirigidos por Cacá Rosset e interpretados com grande ousadia por seus atores.

Sobre esse potencial de mobilizar a memória do espectador fala Hugo Possolo, diretor dos Parlapatões, em texto de apresentação, no qual conta ainda como conseguiu ser demitido do Ornitorrinco em seu primeiro dia de trabalho. "As imagens (de Ubu), frações de segundo emocionantes desse livro, voltam-me subitamente", diz ele depois de afirmar que seu grupo não existiria sem a influência estética e filosófica da trupe capitaneada por Cacá Rosset. "Dei a sorte de estar na estreia de Ubu, um privilégio cravado na minha alma. A abertura da banda em levada rock"n roll e o Polochon, o porco de duas cabeças e nenhum rabo, anunciavam o que viria. Pai Ubu fazendo as batidas de Molière e gritando Merdra. O batalhão de soldados aloprados ao comando hilário de seu capitão. Nascendo nua, crua e gostosa de uma velha mala surgia a Consciência (Christiane Tricerri) de Pai Ubu. O circo presente em saltos, cores e vitalidade com direito a número de trapézio. Tudo e muito mais, somados às canções que sei de cor até hoje, são relíquias que povoam e enriquecem minha memória."

Zé Celso, o professor J. Guinsburg e o crítico do Estado Jefferson Del Rios estão entre os que assinam os textos de apresentação desse livro, cujo sumário traz os títulos dos espetáculos, organização reveladora de uma abordagem "cênica", esperada nessa trupe que jamais separou teoria de prática.

Serviço

O Teatro do Ornitorrinco. Org. Christiane Tricerri. Imprensa Oficial. 524 págs. R$ 185. Restaurante Spot. Al. Ministro Rocha Azevedo, 72. Hoje, 20 h

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