Os Brics e os chips

O Brasil é o único país do bloco conhecido como os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) que não tem uma fábrica de circuitos integrados, os chips.

Luiz Carlos Kretly, O Estadao de S.Paulo

05 Dezembro 2009 | 00h00

Não se trata simplesmente de uma disputa entre países em desenvolvimento, mas uma realidade surpreendente. O Brasil envidou esforços, no final da década de 1970, para tentar consolidar uma indústria de microeletrônica. Os chips são os componentes que dão vida a todos os aparelhos celulares, notebooks, computadores e TVs de LCD, plasma e LED, e todo e qualquer equipamento eletrônico tem um chip, que é seu componente funcional.

A importação de 100% dos chips é uma das maiores responsáveis pelo peso negativo na balança comercial, podendo chegar anualmente em média a US$ 3,2 bilhões, num mercado mundial que movimenta perto de US$ 280 bilhões. Ora, como, então, vivemos sem fabricá-los?

As tentativas da reserva de mercado para microeletrônica nos anos 70, 80 e 90 fracassaram. A partir daí, seguidos governos e políticas industriais para a área também não tiveram sucesso em implantar essa indústria fundamental e estratégica para o século 21.

Em especial, o governo federal, por meio do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), vem amargando a má gestão de institutos que deveriam executar uma política mais agressiva em microeletrônica e colocar o Brasil no cenário de competitividade na produção de chips e colhe resultados que poderíamos chamar de pífios.

As razões são diversas. Há um falso dilema: fabricar chips ou fazer projetos e fabricá-los lá fora, o conceito de fabless, sem fábrica. O projeto ou design de circuitos integrados (os CIs, ou chips) agrega valor, mas isso não é tudo. A fabricação e o design não são excludentes, mas sim complementares.

De fato é atraente a ideia de não nos envolvermos com uma fábrica, a chamada foundry, pois ela exige muito trabalho, investimento que pode chegar a alguns bilhões de dólares e diversos países avançados já possuem foundries. Taiwan é um estupendo exemplo: uma ilha que tem um terço do tamanho de Cuba, e 80% do território montanhoso e inabitado, tem cerca de 40 foundries e as duas maiores do mundo.

O governo federal só investiu em programas de treinamento de projetistas de CIs e em alguns outros programas do tipo Ci- Brasil, Institutos do Milênio e o recente Inct-Namitec. Vem gastando milhões de reais numa equivocada distribuição regional que acaba pulverizando recursos públicos sem obter resultados palpáveis, como chegou a admitir recentemente, corajosa e publicamente, o MCT.

A implantação séria de uma foundry no Brasil deve ser repensada do ponto de vista estratégico e de formação dos nossos jovens engenheiros e cientistas. Mas será que seria necessário fabricar chips no Brasil? Ora, essa dúvida se aplicaria à área aeronáutica: o Brasil precisa ter fábrica de aviões? A Embraer é a quarta indústria do mundo nessa área. O que dizer do setor petrolífero? Do submarino nuclear? Da indústria automotiva, do aço, do álcool, entre outros?

A aquisição de uma foundry de médio porte e produtiva não ultrapassa 5% do total de recursos que serão investidos no programa de jatos militares. Há alternativas: quando uma empresa interrompe uma tecnologia para uma nova linha de chips, é viável adquirir essa fábrica, ainda produtiva e moderna para os nossos padrões, por um custo muito baixo se comparado a uma nova.

Uma fábrica bem implantada, com técnicos e engenheiros brasileiros em estreita colaboração internacional, seria um passaporte do Brasil para este novo século. Mesmo que, do ponto de vista econômico-financeiro, essa primeira foundry não seja o ideal, o efeito de motivação, a cultura tecnológica criada e o processo multiplicador já justificariam plenamente a experiência. Um modelo do tipo fábrica-escola de CIs seria um excelente ponto de partida. O Estado de São Paulo reúne várias competências e massa crítica de logística, infraestrutura e acadêmica para viabilizar esse projeto em curto espaço de tempo. É inexorável o Brasil trilhar esse caminho para o futuro.

Assim, volto à questão inicial: por que só o Brasil entre os Brics não tem uma fábrica de chips? Política errada ou somente nós estamos certos e os demais países dos Brics estão equivocados?

Uma foundry implantada agora (antes tarde do que nunca) é um grande passo na formação de uma cultura tecnológica sustentável. É a economia do conhecimento e de futuro garantido.

Luiz Carlos Kretly, professor e pesquisador de Microeletrônica da Unicamp, é especialista em tecnologia e projeto de circuitos integrados

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