Epitacio Pessoa/AE
Epitacio Pessoa/AE

Os gigantes de Buri

Um tubarão com 28 m de comprimento e 4 m de mandíbula está na boca do povo do município no interior paulista onde convivem dinossauros e heróis constitucionalistas

Ivan Marsiglia, de O Estado de S.Paulo,

21 Abril 2012 | 17h01

O dia mal raiou e lá vem ele, de chapéu de palha, singrando as ruas de terra batida, montado em sua bicicleta azul. No portão do parque aquático, quem o recebe é o bocejante vigia noturno e a magricela vira-latas Nina, que balança o rabo e as tetas cheias de leite. Cão e ciclista atravessam a pequena ponte de madeira até uma ilha no meio do lago artificial que funciona como pesqueiro. Ali, ao redor e, principalmente, no interior da barriga de um tubarão de 28 m de comprimento e 4 m de boca, o buriense Sydnei Eduardo Pieroni, tal qual um personagem de Moby Dick, passa 12 horas de seu dia.

 

Sydnei, de 56 anos, ajudante geral da prefeitura, não se incomoda com as dimensões baleeiras do monumento mais comentado de Buri, município de 18.566 habitantes a 257 km de São Paulo, do qual é dedicado e deglutido zelador. Tampouco fica mordido com as proporções que a polêmica em torno de seu “ambiente de trabalho” tomou às vésperas do ano eleitoral - período em que críticos e partidários do colosso inaugurado em 25 de janeiro de 2004 lançam provocações mútuas, nas ruas e nos blogs da internet. “Quando abriu foi uma festa bonita, sô, tinha um monte de gente aqui debaixo dessa boca”, diz, não sem uma ponta de ironia caipira.

 

Quem pescou, sabe-se Deus de onde, a ideia de erguer um tubarão gigante em uma região de lagos e rios no sudoeste do Estado foi o falecido prefeito João Domingues. Personagem folclórico, morto aos 87 anos em janeiro de 2011, era tido por uns como o visionário que inspira até hoje os “dominguistas” da conturbada política local e, por outros, como uma versão apaulistada de Odorico Paraguaçu.

 

Ex-pracinha da FEB (Força Expedicionária Brasileira) na 2ª Guerra, Domingues foi prefeito de Buri por quatro vezes, sob as bandeiras de diversas agremiações partidárias, a última o PRB, do ex-vice presidente José de Alencar - pelo qual disputou, mas perdeu, o pleito de 2008. Sua longevidade de décadas na cadeira, porém, em pessoa ou representado por parentes e apaniguados, inspirou a suposição, que se ouve em voz baixa na cidade, de que teria “parte com o diabo”.

 

Sobre política e esses assuntos que o povo diz, o zelador Sydnei não sabe dizer. Há oito anos na função, com pequenos intervalos em outras áreas da administração municipal, resume que Domingues “gostava das coisas assim do jeito dele”, mas que nunca lhe fez mal. Conta que, antes de se enfiar no tubarão, trabalhou na roça e foi funcionário da Eucatex na época em que a empresa de Paulo Maluf ainda operava na região - tomada por plantações de eucalipto para produção de celulose, além de lavouras de algodão e milho.

 

Se tira o sustento da mulher e seus dois filhos do peixão, paixão mesmo Sydnei tem pelo Palmeiras - herança do avô italiano, que também lhe emprestou a pele clara e um par de olhos azuis. Mas defende sua repartição cheia de dentes da maledetta boca do povo: “Se nem Jesus Cristo agradou todo o mundo, como é que nós vai, não é mesmo?”

 

O tubarão, de início, foi destinado a compor ambiance para um restaurante de frutos do mar - que, àquela distância do oceano e diante do raso poder aquisitivo local, acabou naufragando. Vazio, cheio de rachaduras e castigado pelo sol e pela chuva, é à custa do capricho de Sydney que o estabelecimento não afunda de vez. Seus banheiros atendem aos frequentadores do parque aquático. E o bicho ainda recebe visitas de crianças, pescadores e caminhoneiros que param no acostamento, admirados com a visão estilo filme B do blockbuster de Steven Spielberg em 1975.

 

Mas engana-se quem pensa que a colossal construção em cimento, gesso e alvenaria - que teria sido projetada por um misterioso engenheiro importado de Piracicaba - é a única surpresa que aguarda o turista que aporta por aquelas bandas. O tubarão de Buri é só a ponta da barbatana das excentricidades cinematográficas do finado João Domingues. Praticamente na mesma época, o ex-prefeito fez surgir, na outra ponta da cidade, um verdadeiro parque jurássico.

 

Ali, em área de proteção ambiental, fincou um minizoológico, um quiosque restaurante e povoou a mata de dinossauros. No caso, um tiranossauro e um brontossauro de 5 m de altura cada, feitos de fibra de vidro, e um pterodáctilo de dimensões um pouco mais modestas. O parque acabou abandonado por sucessivas administrações: o restaurante, fechado, está caindo aos pedaços, os animais foram doados e o mato cresce por todos os lados. Mas os gigantes continuam firmes, resistindo à extinção.

 

Aparentemente, também não morreu a tradição de histórias pitorescas envolvendo prefeitos burienses após o passamento do pioneiro seu Domingues. Reza a lenda que um deles, Jorge Loureiro - o Jorge “da Laura”, por proveniente da Fazenda da Laura, na região -, do PMDB, foi tão pródigo no uso da verba pública que seu sucessor encontrou no cofre da prefeitura uma solitária moeda de R$ 1.

 

Também não escapa à sina o alcaide atual, Cláudio Ú Fonseca - assim mesmo, em maíuscula com acento, no apelido de infância que incorporou ao nome -, que deve disputar a reeleição pelo PDT. Abandonado pela mulher em 2010, para espicaçá-la lançou na rádio da cidade a campanha “Procura-se uma primeira-dama”, assunto que mereceu reportagem de Maurício Kubrusly no Fantástico. Menos graça teve a notícia, agora em dezembro, de que Ú se tornara alvo de inquérito na delegacia seccional de Itapeva por agressão à ex e duas amigas durante um baile na cidade. Ele continua solteiro.

 

Entretanto, a Buri simpática que já foi chamada de “Capital da Amizade” tem outros heróis de grande estatura. O vilarejo fundado às margens do Rio Apiaí-Guaçu por um imigrante açoriano em 1782 foi palco de um dos episódios mais sangrentos da Revolução de 1932, quando os paulistas se rebelaram contra o governo provisório de Getúlio Vargas. Ali se deu, no fatídico mês de agosto, a Batalha de Vitorino Carmilo, ou Segunda Batalha de Buri, na qual 1.030 soldados constitucionalistas enfrentaram 6 mil soldados federais. Foram 17 horas ininterruptas de confronto, que terminou com centenas de mortos e a tomada da estação ferroviária pelas tropas getulistas.

 

Os olhos do trem fantasma. Ainda estão, no topo da estação da cidade, os dois holofotes do temido Trem Blindado dos paulistas, composição com vagões camuflados, revestidos com placas de aço nas laterais e equipados com metralhadoras, que assustou as tropas federais. Autoridades burienses preparam no local um evento comemorativo dos 80 anos da Revolução no dia 10 de julho (a Revolução começou dia 9), festa para a qual foi convidada a presidente Dilma Rousseff.

 

“É esse o tipo de monumento que Buri merece”, diz o professor universitário e ex-militar Jefferson Biajone, que inaugurou, no dia 12, um centro de estudos sobre o tema na cidade. A ideia agora, explica o assessor do prefeito José Roque Dias, é “investir no turismo histórico” e construir “um parque temático sobre a Revolução de 32”, capaz de fazer sombra ao famigerado tubarão - que a atual gestão já desistiu de remover.

 

“Minha sugestão é pintá-lo de marrom, acrescentar dois bigodes e transformá-lo numa mandijuba, o peixe que mais se acha aqui no Rio Apiaí”, debocha o advogado e blogueiro Rafael Saraiva, que apoia o incentivo ao turismo histórico mas sonha com a volta das fanfarras e quermesses típicas da Buri de seus pais. O blog do Seu Saraiva e o Pesca Buri estão entre os que volta e meia cutucam pela web a “obra-prima” e sem serventia do Odorico paulista.

 

Quer dizer, serventia, quem há de negar, ela tem, para os três filhotes com 30 dias de vida da cadela Nina, que dormem emboladinhos em seu estômago monumental. Sem falar no zeloso Sydnei, que entre idas e vindas, já se conformou em que a bocarra será o ponto fatal de sua carreira: “Acho que meu destino é aposentar aqui mesmo no tubarão”.

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