Os juros e o governo travado

A pressão contra o ministro da Fazenda se mantém, o impasse político prossegue e o ajuste das contas públicas continua travado, enquanto continuam subindo as projeções de inflação para este ano e para o próximo. Há pelo menos uma boa razão, portanto, para apostar na manutenção dos juros básicos em 14,25%, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) programada para hoje e amanhã, a penúltima do ano. Essa é a previsão unânime dos analistas consultados pela Agência Estado. Sem perspectiva de melhora das contas públicas num prazo razoável, mas com câmbio instável e com a expectativa de aperto no mercado financeiro internacional, baixar os juros no Brasil, neste momento, seria um jogo muito arriscado. Será uma surpresa para muita gente se os membros do Copom, dirigentes do BC, resolverem, mesmo com muita cautela, baratear o dinheiro.

O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2015 | 02h55

Juros altos podem ser insuficientes para conter a inflação brasileira. Além disso, encarecem e fazem crescer a já volumosa dívida pública. Mas só o crédito apertado e a recessão impõem, neste momento, algum freio à alta de preços e impedem uma aceleração maior dos aumentos.

Afrouxar a política de crédito, neste cenário, como propõem alguns críticos da política econômica, seria enfraquecer a única ferramenta disponível, hoje, para a ação anti-inflacionária. Uma das consequências prováveis seria uma pressão maior sobre o câmbio e, portanto, sobre os preços dos produtos importados – bens finais, matérias-primas e bens intermediários.

Máquinas e equipamentos também ficariam mais caros, mas a importação desses produtos há mais de um ano está em queda. De janeiro a setembro, foi 17,1% menor que a de um ano antes, pela média dos dias úteis. Num país em crise, com governo paralisado e sem perspectiva de melhora, quem terá interesse em aumentar a capacidade produtiva?

A presidente Dilma Rousseff, em visita à Suécia, voltou a negar a hipótese de saída, agora, do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Numa entrevista publicada na Folha de S.Paulo no domingo, o presidente do PT, Rui Falcão, havia defendido o afastamento de Levy, se ele continuar descumprindo o receituário do partido.

O receituário inclui, entre outras bobagens, o corte de juros e a diminuição do depósito compulsório dos bancos, para aumento dos empréstimos tanto para investimento quando para consumo. Providências desse tipo são da competência do BC, mas o entrevistado parece dar pouca importância a detalhes como esse. Estaria implícita uma sugestão de afastamento também do presidente do BC? A presidente ignorou esse ponto, ao responder à entrevista em Estocolmo.

Respostas como essa têm pouco efeito, porque o enfraquecimento da presidente é inegável e seus companheiros do PT, a começar pelo grande eleitor de postes, o ex-presidente Lula, continuam dando palpites sem muita cerimônia. A presidente é tratada como se estivesse no Palácio do Planalto para cumprir ordens de seu partido e, é claro, para atender aos interesses político-eleitorais de seus mandantes. Nenhum analista, no Brasil ou no exterior, tem razão para desconsiderar essa tutela.

Enquanto a crise política se prolonga, a recessão se aprofunda e as pessoas se perguntam por que o ministro da Fazenda insiste em ficar no posto, as previsões pioram. A mediana das projeções para a inflação para este ano chegou a 9,75%, em mais uma alta. A expectativa para 2016 foi elevada para 6,12%. No mercado ainda se espera uma redução dos juros a partir de julho, mas em ritmo mais lento do que o indicado nas semanas anteriores. A meta da taxa básica, a Selic, passou de 12,63% para 12,75% no fim de 2016. A Selic média estimada para o próximo ano subiu de 13,75% para 13,83%. Para o início de 2017 a taxa prevista foi de 12,25% para 12,50%. Enquanto isso, a economia deve continuar em retração – de 3% em 2015 e de 1,22% em 2016, números piores que os da semana anterior. Por que deixariam de piorar, se o governo continua travado?

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.