Os sons que unem Brasil e Coreia

Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, de Brasília, participa de intercâmbio musical em Seul

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

23 de outubro de 2009 | 00h00

"A questão é que os músicos precisam experimentar os contrabaixos, são instrumentos diferentes dos que eles costumam usar, eles precisam se adaptar antes do primeiro ensaio." A mistura improvável de idiomas - inglês, português, coreano - torna a comunicação difícil. A loja que emprestará os contrabaixos só abre às 2 da tarde e ainda são 10 da manhã. Fica decidido que apenas o líder do naipe precisa ir até lá. Resolvido? "E com a harpa, como vamos fazer?" A reunião acontece na sala de eventos de um hotel no centro de Seul. Do Brasil para a Coreia, 36 horas de viagem depois: para todos os lados, bagagens, caixas de instrumentos, músicos esparramados pelo chão. No lobby, o compositor americano Michael Collina passeia pela multidão de brasileiros, com a partitura de seu Los Caprichos à mão. Do lado de fora, perdidos pelas ruas, alguns músicos já procuram um shopping center, em busca de aparelhos eletrônicos; outros se sentam em uma pequena cafeteria - "Dizem que há uma boa loja de materiais musicais aqui na cidade"; outro grupo prefere uma cerveja. "Mas com esse cartão telefônico dá para falar quanto tempo?" "Tá maluco? Não usa o celular não, vai ser uma fortuna." "Eu preciso de um banho, a que horas vamos poder entrar no quarto? Fala sério que só às 2..." A jornada de uma orquestra brasileira pela Coreia está apenas começando.

O ponto de partida foi na madrugada do sábado, em Brasília, quando a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro partiu para São Paulo; horas mais tarde, estava em Guarulhos, embarcando para Los Angeles, de onde, então, seguiu para Seul. Aqui, participa do Festival Mundial de Teatros Nacionais, que em sua terceira edição reúne grupos musicais e artísticos de dez países. Diálogo entre diferenças, por meio da arte - o conceito não poderia ser mais simples. Já a logística... Entre músicos e equipe técnica e administrativa, são mais de cem pessoas... Melhor dizendo: mais de cem artistas, cada um com suas manias, necessidades, chatices. "Essas partes de Ensaio de Orquestra, do Fellini, você não publica não, hein?!", brinca uma violinista.

Na bagagem de cada músico, há também certa responsabilidade. Nos últimos anos, a orquestra de Brasília tem passado por um processo de renovação comandado pelo maestro Ira Levin - ampliou o repertório, o número de concertos, reinventou suas temporadas. A viagem para a Coreia é símbolo dessa nova fase. Aqui, apresentaram dois concertos, com programa ambicioso: Los Caprichos, de Collina, obra dedicada à orquestra; a Sinfonia nº 5, de Mendelssohn; as Bachianas Brasileiras nº 4, de Villa-Lobos; e Francesca da Rimini, de Tchaikovsky. "É um programa longo e exigente, mas é essa a ideia, poder mostrar do que esses músicos são capazes", explica o maestro Ira Levin. "Será interessante."

"Se não estiver se mexendo, pode comer", brinca o contrabaixista durante o primeiro almoço do grupo em terras asiáticas. "Vixe, até o cheiro é apimentado." Garfo? Água? As senhoras coreanas apenas acenam a cabeça, sorriso nos lábios, e continuam caminhando agitadamente entre uma mesa e outra. O estranhamento é gigantesco - e nem todo mundo leva com bom humor. Aos poucos, vai ficando clara a proporção de uma viagem como essa: a produção precisa explicar que, como se trata de um grupo muito grande, os organizadores locais não conseguiram encontrar restaurantes com comida ocidental que pudessem acomodá-los. O impacto vai diminuindo e, no dia seguinte, no Teatro Nacional de Seul, a refeição servida na cafeteria parece mais agradável. "Só o garfo mesmo faz falta", diz um músico, que faz do hashi uma faca improvisada - e pouco eficiente.

O Teatro Nacional fica em uma enorme praça próxima à universidade local; seus salões se abrem em direção ao caminho que, montanha acima, leva à Torre de Seul, de onde se tem, dizem os locais, a melhor vista da cidade. Na terça de manhã, um dia após a chegada, os músicos participaram, da plateia, de um concerto da orquestra residente do espaço, uma sinfônica com instrumentos regionais: o haegum, espécie de violino vertical com duas cordas; o geomungo, o equivalente ao contrabaixo; o gayageum, similar ao violoncelo. No programa, obras tradicionais coreanas e arranjos interessantes de Mozart e Shostakovich, revestidos em uma sonoridade melancólica, que parece evocar paisagens bucólicas de rios e montanhas - assim como o riacho que corta o centro financeiro de Seul acaba sendo como uma lembrança distante, ainda que contundente, da memória rural do país.

Depois do concerto, os músicos brasileiros puderam conversar com os coreanos - e arriscar algumas notas em seus instrumentos. A melancolia, então, logo deu lugar a Asa Branca e tantas outras célebres melodias da nossa cultura. E, um pouco mais tarde, quando a sinfônica ocupou enfim o palco do Teatro Nacional para o primeiro ensaio, era a vez de um universo sonoro inteiramente diferente tomar forma. Com o compositor na plateia, atento a cada detalhe, Los Caprichos foi a primeira peça. Nela, Collina recria por meio de sons uma série de gravuras em que Goya critica instituições e aponta as misérias da Espanha do final do século 18. Em seguida, Mendelssohn e sua Sinfonia nº 5, homenagem à reforma protestante de Martinho Lutero; Villa-Lobos e a sua mistura de folclore com Bach; e Tchaikovsky com sua recriação sinfônica de uma das narrativas de Dante na Divina Comédia. Globalização para todos os lados, para todos os gostos. Isso antes mesmo da primeira apresentação de uma orquestra sinfônica brasileira em palcos coreanos.

Na manhã após o primeiro concerto, enquanto espera um grupo de músicos na porta do hotel, Erich Lehninger conversa com o Estado. Um dos grandes violinistas em atividade no Brasil, solista, professor, camerista, ele assumiu no início do ano o posto de spalla da Sinfônica do Teatro Nacional - e ajudou o maestro Ira Levin a reinventar as cordas do grupo. "Há músicos muito talentosos nessa orquestra", diz ele. "Meu trabalho é orientá-los na busca pela intenção das partituras e propor uma nova disciplina." O concerto da noite anterior é prova de que os resultados estão sendo alcançados. Seja nos breves e contrastantes episódios de Los Caprichos, seja na melancolia dos movimentos iniciais da Bachiana ou mesmo nas explosões dramáticas de Tchaikovsky, as cordas da Sinfônica de Brasília já apresentam uma nova personalidade. E isso, de resto, vale ao conjunto da orquestra. Símbolo acabado dessa nova fase, em que a orquestra pode reivindicar posição de destaque da música de concerto brasileira, é a interpretação da sinfonia de Mendelssohn: o maestro Levin e seus músicos oferecem uma leitura mais introspectiva e tensa, recusando a superficialidade que o senso comum costuma empregar à produção do compositor. Como bis, o Batuque, de Lorenzo Fernandez, repetido duas vezes, encerrando a noite em clima de festa brasileira. Na noite de quarta, o segundo concerto confirmou a impressão, com três voltas ao palco: dois Batuques e o Prelúdio da Bachiana nº 4. Hora, então, de voltar para casa. Uma nova sede - ou ao menos uma reforma no Teatro Nacional Claudio Santoro; orçamento maior, mais músicos. O sucesso na Coreia, é verdade, não apaga os problemas. Mas pode ser indício de que vale a pena enfrentá-los.

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