Os tintos do Alentejo

Há algumas décadas a região produzia tintos e brancos rústicos, sem classe, alcoólicos. Hoje, com as vinícolas bem equipadas, constata-se um grande progresso

saul.galvao@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2008 | 04h03

O Alentejo ilustra muito bem a evolução do vinho de Portugal. Há algumas décadas, a região produzia principalmente tintos e brancos rústicos, alcoólicos, sem classe, que eram consumidos principalmente nos balcões dos bares e das tascas. A região é bastante extensa, com perto de 20 mil hectares de vinhas, que aparecem em manchas esparsas numa paisagem monótona, plana, com muitas florestas de sobreiros, que dão a cortiça usada em rolhas. Mais da metade da cortiça do mundo vem de Portugal. Uma região relativamente pobre, com uma cozinha espetacular e variada. Portugal mudou muito recentemente, principalmente após a adesão do país à Comunidade Européia. Evidentemente, o progresso chegou também ao mundo do vinho. No Alentejo, o nível técnico era precário. Eram comuns as fermentações a altíssimas temperaturas, que geravam produtos alcoólicos e sem classe. Hoje, as vinícolas são normalmente bem equipadas e podem controlar a temperatura dessas fermentações, o que representou um grande progresso. É meio difícil definir os tintos do Alentejo, que são feitos em várias zonas , usando um leque amplo de cepas. Portalegre, Borba, Redondo, Évora, Vidigueira, Moura, Granja Amareleja e Reguengos de Monsaraz são as principais zonas, cujos nomes podem aparecer nos rótulos Uvas autóctones e muitas ''importadas'' entram nos cortes. Trincadeira, Alicante Bouschet, Moreto e Castelão Francês são as uvas tradicionais. A Alicante Bouschet é de origem francesa, mas está no Alentejo há muito tempo. Encontramos ainda uvas portuguesas de outras regiões, notadamente a Touriga Nacional e de outros países, como Cabernet Sauvignon e a Syrah, que vêm se dando muito bem. Com tantas sub-regiões e uvas, há tintos de vários níveis, desde os comuns aos excelentes. Vamos ficar aqui com tintos de um nível intermediário, de uma faixa de preço abaixo de R$ 70. ALENTEX PREMIUM 2004 ONDE ENCONTRAR: BR BEBIDAS. 3071-0777 PREÇO: R$ 67 COTAÇÃO: 86/100 Um vinho produzido pela Enoforum, uma espécie de consórcio de várias vinícolas que visa a difundir os vinhos do Alentejo. Feito com as uvas Trincadeira e Aragonês. Aroma agradável, direto e sem muitas nuances. Algo vegetal, herbáceo,sugerindo eucalipto e outras características balsâmicas. Notas bem colocadas de madeira. Um aroma que pode não ser dos mais intensos, mas agrada. Gostoso, doce e frutado. O ponto alto do vinho. Na boca, dois tempos. Primeira impressão, agradável, de vinho redondo, sem arestas. Bom equilíbrio entre fruta e carvalho. Depois cai um pouco. Concentração de sabor razoável, mas um pouco rústico. Acidez marcante, que alguns poderão estranhar, e taninos bem perceptíveis, que secam um pouco a boca ao final. Deverá evoluir na garrafa. Álcool equilibrado. 13% de álcool. VINHA DA TAPADA 2005 ONDE ENCONTRAR: MISTRAL TEL. 3372-3400 PREÇO: R$ 53,63 COTAÇÃO: 87/100 Produzido pela Tapada dos Coelheiros, um bom nome. Uma espécie de ''segundo vinho'' da empresa. Um corte muito particular de uvas autóctones com outras de origem francesa: Aragonês, Trincadeira, Cabernet Sauvignon, Syrah e Castelão Francês. Segundo o rótulo, breve estágio em carvalho francês, cujo toque é, efetivamente, muito delicado - aparece só ao fundo. O aroma agradou bastante. É o ponto forte do vinho, que foi ficando mais intenso com mais tempo no copo. Evocou ameixas e amoras. No nariz, frutas e o pano de fundo do carvalho. Um vinho novo, que já dá prazer, mas deve evoluir. Na boca, boa fruta. Tinto com bastante acidez, que alguns podem não gostar. Final meio rústico, com um certo amargor. Álcool bem comportado, sem se destacar demais. 13% de álcool. MONTE DA RAVAQUEIRA 2005 ONDE ENCONTRAR: VINCI TEL. 6097-0000 PREÇO: R$ 58,36 COTAÇÃO: 88/100 Um tinto interessante, gostoso, que deve agradar a quem gosta de tintos marcados pela madeira. Potente, alcoólico, concentrado e com toques bem nítidos de madeira. Um corte nada habitual de uvas locais e de origem francesa: Syrah, Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Aragonês, Touriga Franca e Petit Verdot. O resultado da mistura de tantas uvas agradou. Bem escurão e com aroma intenso, marcado pelo carvalho, com notas de coco, mas também de frutas. Algo mineral. Aroma complexo, com muitas nuances. Continuou no mesmo tom na primeira impressão na boca. Redondo, potente, concentrado. Apesar da alta graduação, o álcool não aparece tanto. Final um pouco duro. Taninos secam um pouco a boca, mas o retrogosto intenso, mais uma vez marcado pelo coco. 14,5% de álcool. BORBA TOURIGA NACIONAL ONDE ENCONTRAR: ADEGA ALENTEJANA, R. CINCINATI,,12, 5044-5760 PREÇO: R$ 69,40 COTAÇÃO: 89/100 A Cooperativa de Borba vem mantendo um bom padrão de qualidade. A Touriga Nacional é uma das melhores uvas de Portugal. A cepa é do Dão e está se dando bem ainda no Alentejo. Normalmente, gera vinhos que precisam de alguns anos nas garrafas para demonstrar sua classe. Este tinto já agrada, mas deve melhorar com mais tempo na garrafa. Passou quatro meses em barricas de carvalho francês, cujo toque aparece discretamente. Os aspectos florais, característicos da Touriga Nacional, aparecem no aroma e na boca. Algumas vezes, os vinhos da Touriga têm um toque de violeta, como acontece neste exemplar. Um vinho macio, ''doce'', fácil de beber e de gostar. Álcool equilibrado. Apenas o final é um pouco duro. 13,5% de álcool.

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