'OU VOCÊ SE CASA COMIGO OU VOU SER PADRE'

Amália Damonte, a ex-namorada, relata juventude do papa e paixão quando ambos tinham 12 anos; ex-vizinhos ainda vivem no mesmo bairro

ADRIANA CARRANCA, ENVIADA ESPECIAL, BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2013 | 02h01

O sobrado de número 555 da Calle Membrillar, no bairro portenho de Flores, onde as pessoas se conhecem desde sempre, esconde uma parte da vida de Jorge Bergoglio que poucos sabem. Ali, sob a sombra de uma árvore, declarou seu amor de menino a Amália Damonte. Então com 12 anos, eles moravam a quatro casas de distância, trocavam olhares e mensagens, mas poucas palavras, às escondidas.

Quando o pai descobriu em posse da filha uma carta de amor, deu-lhe uma surra e a proibiu de sair, o que teria levado Bergoglio a fazer a primeira de muitas promessas que viriam: "Ou você se casa comigo ou vou ser padre", conta Amália, sob flashes de fotógrafos, no jardim do sobrado onde nasceu há 76 primaveras. "Sinto orgulho das nossas origens e de vê-lo agora se tornar papa", disse ao Estado.

Naquele 1937, nascia o pontífice num casebre térreo no número 531. A casa agora com um andar e garagem foi modificada por Arturo Blanco, que ali vive há 35 anos e levou a reportagem para conhecer o jardim e o quarto dos fundos onde Bergoglio passou a infância e permanecem como naqueles tempos.

Na casa branca e amarela da esquina fica Oswaldo, que aos 97 anos ainda se lembra de quando Bergoglio, menino, corria a rua com uma bola nos pés quebrando os vidros da vizinhança. Também apertava campainhas e fugia.

Poucos metros adiante está a igreja onde assistiu às primeiras missas e mantém grandes amigos até hoje - a Igreja de Santa Francisca Javiera Cabrini. Como faz todos os anos, Bergoglio era esperado para uma visita na Semana Santa. Há 20 dias, telefonou para avisar que Deus talvez lhe reservasse outro destino.

"Eu atendi e reconheci sua voz, mas nunca imaginei que ele pudesse estar ao telefone. Perguntei quem era e ele respondeu: é o padre Bergoglio. Não disse bispo, não pediu que um assistente fizesse a ligação por ele, não mandou recado. Isso, para mim, demonstra quem é o novo papa, uma prova de sua enorme humildade", disse a secretária da igreja, Maria Esther Gusmão, de 63 anos, com uma foto de Bergoglio, em visita no aniversário de 40 anos da paróquia. "Ele sempre volta à casa."

Na Igreja San José de Flores, no mesmo bairro onde o papa nasceu e viveu até os 14 anos, Luis Avellaneda conta que há cerca de 3 meses tomou o metrô e três estações adiante viu entrar no trem Bergoglio, já cotado para o papado. Perguntou o que fazia ali e o bispo respondeu: "Estou indo trabalhar". Desceu na Praça de Maio e seguiu para a Catedral de Buenos Aires.

"Ele sempre foi assim. Nunca andou em carro oficial nem com motorista, vinha para a igreja de ônibus, metrô. Não apenas segue, mas vive a doutrina jesuíta." Ali, ajoelhado no chão de mármore preto e branco, sob a bênção de San José de Flores, Bergoglio pediu muitas vezes a orientação divina. Na solidão do confessionário teria, aos 17 anos, a confirmação que esperava para a sua vocação e decidiu ingressar no seminário. Hoje, segundo Luis, Bergoglio costuma repetir aos amigos: "O que se pede a São Jose, nenhum outro santo resolve."

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