Outro olhar sobre o Brasil numa coleção rara

A Brasiliana da Fundação Estudar tem obras de Debret, Rugendas e Taunay, entre outros pintores viajantes do século 19

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

06 Março 2010 | 00h00

Doada à Pinacoteca do Estado em outubro de 2007, a Coleção Brasiliana da Fundação Estudar não é tão grande em número de objetos (quase 500 obras entre pinturas, gravuras, desenhos e livros centrados no século 19) quando comparada à Brasiliana do Itaú (5 mil itens históricos, entre os quais se encontra o primeiro panorama de São Paulo, pintado em 1821 pelo francês Arnaud Julien). No entanto, é uma coleção fundamental para descobrir aspectos do Brasil imperial aos quais pintores locais deram pouca importância, mas que os artistas viajantes europeus souberam avaliar de forma crítica no século 19, entre eles Debret. Dele, a Brasiliana da Fundação Estudar tem litografias sobre o cotidiano de escravos e índios (de seu livro Voyage Pittoresque et Historique au Brésil) e um óleo sobre cartão colado sobre tela de 1816, em que o artista francês pinta a revista das tropas destinadas a Montevidéu.

 

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Debret (1768-1848) é um caso singular na Brasiliana da Fundação Estudar. Não pelo número de obras, que é pequeno, mas pelo olhar especial que devotou à realidade brasileira, registrando minuciosamente como eram as relações interclassistas no Brasil do século 19. É interessante notar como outro pintor viajante presente na coleção, o tenente inglês Henry Chamberlain (1796-1844), retratando os mesmos personagens de Debret - especialmente escravos - não consegue ultrapassar os limites de sua visão ingênua sobre a sociedade brasileira, enquanto o francês realiza quase um trabalho jornalístico de documentação sobre a perversidade dos senhores de escravos num país que já nasce sob o signo da injustiça social. Debret, dominado pela visão romântica, rejeita a neutralidade especular da visão neoclássica, interpretando o que vê.

Uma exposição que será aberta no dia 15 de maio na mesma Pinacoteca, Índios e Viajantes, deverá ressaltar a diferença entre as visões do aristocrata Chamberlain, filho de cônsul, e Debret, mas também do artista alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), presente na coleção com desenhos, gravuras e aquarelas que mostram estudos de povos indígenas. O científico Rugendas, que veio ao Brasil com a Expedição Langsdorff, é um dos grandes nomes da Brasiliana da Fundação Estudar, em que figuram artistas como o belga Benjamin Mary (1792-1846), o austríaco Thomas Ender (1793-1875) e o francês Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830), entre outros pintores viajantes que percorreram o Brasil no século 19. Alguns deles, como Taunay, não conseguiram evitar o discurso eurocêntrico, contrabandeando para a paisagem brasileira uma luz distante da tropical. Essa distorção fica ainda mais evidente diante de uma tela de Henri-Nicolas Vinet (1817- 1876), que morreu no Brasil dando aulas de pintura sobre o que aprendeu com Corot.

Não deixa de ser curioso o fato de a coleção ter sido organizada nos anos 1940 por um marchand radicado em Paris, nascido em Minsk e casado com uma poeta portuguesa, Jacques Kugel (1912-1985). Seus herdeiros venderam sua Brasiliana em 1996 para a fundação inglesa Rank-Packard, que a transferiu um ano depois para a Fundação Estudar. Na época, a coleção tinha 280 itens, não constando dela os três volumes com as gravuras de Debret, comprados posteriormente.

No Brasil, as Brasilianas começaram com coleções de livros de intelectuais como Rubens Borba de Moraes e bibliófilos como José Mindlin, morto no último dia 28 de fevereiro, ambas doadas à USP. Na Europa, elas pertencem a museus e guardam os desenhos e textos da expedições científicas que mapearam a fauna, a flora e os tipos brasileiros.

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