Outros Estados podem ter peças de tecido contaminado por lixo hospitalar

PF investiga clientes em todo o País, incluindo São Paulo, de empresa que importava roupas e lençóis usados de hospitais americanos

Angela Lacerda, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2011 | 03h03

RECIFE - Forros de bolsos feitos com lençóis descartados por hospitais americanos e importados pela empresa Na Intimidade Ltda., de Santa Cruz do Capibaribe (PE), podem estar presentes em confecções de outros Estados, como São Paulo.

"Acredito que a empresa tenha clientes no Brasil inteiro, mas isso será afirmado no decorrer das investigações", afirmou o superintendente da Polícia Federal em Pernambuco, Marlon Jefferson. Ele adiantou que será feito um pedido de cooperação internacional às autoridades americanas, por meio do Ministério da Justiça, para descobrir os responsáveis pela exportação de lixo hospitalar. O inquérito deve se estender por até 90 dias.

Jefferson fez as afirmações após reunião com o governador Eduardo Campos (PSB), autoridades sanitárias, policiais, empresários do polo têxtil e Receita Federal. No encontro, Campos responsabilizou os Estados Unidos pelo incidente, por permitir a exportação de uma "mercadoria que não devia ter saído".

Ele afirmou que escreverá à presidente Dilma Rousseff para que ela peça às autoridades americanas que apurem "esse delito que começou nos Estados Unidos". Ele defende que os dirigentes dos hospitais que tiveram seu material de descarte exportado sejam responsabilizados.

Para o governador, o Estado fez a sua parte, pois a Receita Federal identificou e barrou, na semana passada, no Porto de Suape, a entrada de lixo hospitalar disfarçado como "tecido de algodão com defeito". Vestindo uma camiseta com a inscrição "Eu uso produto do polo têxtil. Confecção é coisa séria. Não é lixo. É desenvolvimento para Pernambuco", ele lidera uma campanha nacional em favor do polo.

Com base na avaliação de infectologistas, Campos frisou que somente os trabalhadores da empresa que manusearam os tecidos correram risco de contaminação. "O risco para quem usa é zero", reiterou o gerente da Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária (Apevisa), Jaime Brito. Segundo ele, a lavagem torna inativa qualquer infecção que pudesse ser transmitida.

Em Toritama, a notícia já afeta o comércio. "Mesmo quem não tem nada a ver com jeans está sofrendo", disse o diretor comercial da Rota do Mar, especializada em roupas esportivas, Adilson Silva. "Não usamos forros, mas nossas vendas caíram. Não tenho ainda como dizer qual foi porcentual da queda, porque números não estão fechados." Segundo ele, boa parte do produto da Império do Forro de Bolso era vendida para empresas locais. "O bolso chega lavado, do tamanho encomendado. Só pela análise do produto, não tem como saber se era feito de lençol."

Sumiço. O dono da Na Intimidade Ltda., Altair Teixeira de Moura falou com o Estado pela manhã. Alegou inocência e prometeu que esclareceria o caso em entrevista coletiva. Disse que esperava seu advogado para informar o local e horário. Depois, desligou o celular e sumiu.

A PF diz que sua empresa foi a única a importar lixo hospitalar na região, incorrendo na infração de contrabando - que prevê pena de até quatro anos. Segundo Jefferson, Moura pode estar envolvimento com lavagem de dinheiro.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) em Pernambuco também abriu inquérito para investigar duas possíveis irregularidades trabalhistas na empresa: exploração de trabalho infantil e ausência de uso de equipamento de proteção individual, com o luvas, pelos seus funcionários. Segundo a procuradora Ana Carolina Ribemboim, do MPT em Caruaru, as denúncias começaram a ser feitas em rádios locais, dando conta de que menores de idade trabalhariam na empresa. Além disso, 13 funcionários trabalhavam sem equipamento de proteção. Empregados da empresa em Santa Cruz revelaram ao Jornal do Commercio que em alguns lençóis foram vistos tufos de cabelo, curativos e esparadrapos. / COLABOROU LÍGIA FORMENTI

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