Oxigenação caribenha

Cuba pode representar para o papa o território de reinvenção do catolicismo como religião popular

José de Souza Martins,

31 Março 2012 | 17h03

A visita papal a Cuba, cujo principal líder, Fidel Castro, foi excomungado pelo papa João XXIII, tem um significado amplo e contém propósitos não explícitos que a tornam muito interessante do ponto de vista analítico. Historicamente, a Igreja Católica cubana é uma igreja da elite branca, boa parte da qual se encontra hoje no exílio dourado da Flórida. Na época da revolução, em 1959, eram muitos os cubanos de religiosidade sincrética, praticantes da santería, correspondente ao nosso candomblé, que teve a simpatia do novo regime, não obstante o ditador deposto, Fulgencio Batista, fosse pai de santo. As religiões são historicamente integrantes das diferenças sociais e da trama política cubanas.

Um surto religioso ocorreu em Cuba com a visita histórica do papa João Paulo II, em 1998, que desatou as amarras impostas pelo regime comunista à religiosidade dos cubanos. Ele se situa num amplo cenário de restauração política do sagrado, que a revolução banira ao fazer do materialismo a “religião” oficial.

 

Curiosamente, a visita de Wojtyla abriu espaço para a expansão evangélica e anticatólica, no geral apoiada materialmente por igrejas fundamentalistas americanas. O que em Cuba está se propondo no terreno estritamente religioso representa a forma religiosa de um solapamento ideológico que é amplamente política. É pouco provável que essa via de mudança não tenha sido avaliada pelos dirigentes cubanos, na escolha do menor dos males para os impasses decorrentes do desaparecimento da União Soviética e do apoio econômico e político que ela representava. Enveredaram pelo caminho auxiliar da religião, que representa a redução das tensões potenciais a um canal de antagonismos por meio dela negociáveis.

De certo modo, sou testemunha e involuntário participante de um episódio adjetivo do processo de reaproximação entre Cuba e a Igreja, que é o que me dá a compreensão que dele tenho. Em 1981 fui convidado a ir a Havana como membro do júri do Prêmio Casa de las Américas. Logo nos primeiros dias, fui procurado no hotel por um sujeito em mangas de camisa, pastinha em baixo do braço, que me convidava para jantar numa das noites seguintes num restaurante chamado El Conejito. Queria conversar sobre a Igreja no Brasil. Disse-me que o governo cubano estava interessado em estabelecer um contato com a Igreja Católica daqui. Contou-me as dificuldades com o Vaticano, que reduzira o catolicismo em Cuba a uma religião de baixo perfil, igrejas fechadas a maior parte do tempo, e com isso procurava indispor os católicos cubanos contra o regime.

Os governantes cubanos estavam surpresos com o catolicismo brasileiro da Teologia da Libertação e das comunidades de base. Imaginavam, como tanta gente, equivocadamente, que havia aí uma fusão de marxismo e cristianismo. Gostariam de estimular um diálogo da Igreja brasileira com a Igreja cubana para ali difundir as CEBs e, desse modo, contornar e atenuar o veto do Vaticano ao regime. Entendi, então, a razão do convite para ir a Cuba e de que tenha sido Florestan Fernandes, cassado na USP e professor na PUC, o portador da carta.

Embora conhecesse vários bispos, de reuniões de estudo de que participamos juntos, e tivesse sido um dos assessores de um dos encontros de Itaici, expliquei-lhe que não tinha legitimidade para fazer a conexão pedida. Sugeri o nome do Frei Betto. Escritor, leigo (não é ordenado), articulador das comunidades de base, amigo dos bispos com elas identificados, que poderia avaliar e fazer a ligação pedida. O interlocutor comentou: “Frei Betto seria a sopa no mel”. O dominicano acabou indo a Cuba e escrevendo o famoso livro sobre Fidel e a religião, lido com interesse pelo papa João Paulo II, conforme comentário que ouvi em Roma. Foi o que abriu o caminho para a primeira visita do papa, a nomeação de um novo cardeal e a reaproximação entre o Vaticano e Cuba.

A visita de Bento XVI tem especial significado mais como gesto intencionalmente pastoral do que como gesto político. Cuba pode representar para o papa o território de uma reinvenção do catolicismo como religião popular encarnada, num momento de transição social e política em que a Igreja pode, pela primeira vez na história do país, assumir uma função decisiva na transformação identitária do povo cubano. O comunismo de Estado em Cuba está em crise por falta de renovação e de horizontes, distanciado do próprio Marx que supostamente o inspira. Ninguém ignora que um vazio se abriu em Cuba com o fim da União Soviética. Assim como o Brasil procura ocupar o espaço econômico que os americanos não ocupam, a Igreja procura ocupar o espaço religioso e moral da nova vida cotidiana que está surgindo com a incerteza do regime. Nele há amplo lugar para acolher o discurso anticapitalista do papa, que condena o capitalismo selvagem e o bloqueio a Cuba, como fez nessa viagem. Sem contar as referências explícitas e positivas que já fez à teoria da alienação de Karl Marx, ainda que com objeções ao marxismo.

* José de Souza Martins, sociólogo e professor emérito da USP. É autor de `A Política do Brasil Lúmpen e Místico` (Contexto 2011)

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