Pacientes de cirurgia plástica ignoram importância do tipo de anestesia

A maioria dos pacientes de uma cirurgia plástica se preocupa sempre com preço, às vezes com expertise do médico e quase nunca com a anestesia. Se o que determina o sucesso do procedimento do ponto de vista estético é a habilidade do cirurgião, cabe ao anestesista - ou anestesiologista, como eles preferem ser chamados - a tarefa mais importante: fazer com que o paciente saia, além de mais bonito, vivo da mesa de operação.

Karina Toledo e Valéria França, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

"Um minuto sem oxigênio pode significar uma lesão cerebral. O anestesiologista precisa ser bom", diz Irimar de Paula Posso, de 67 anos, professor de Anestesia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Uma das formas que o mercado usa para enxugar o custo é eliminar etapas importantes da avaliação médica, como a consulta com o anestesista, profissional que o paciente normalmente encontra só na mesa de cirurgia. "Estou cansado de ouvir casos de pacientes que morrem na mesa de operação. Toda cirurgia tem um risco, mas quando o procedimento é muito barato, alguma coisa foi deixada de lado", diz Posso.

Quando não existe uma consulta, as doses dos anestésicos são calculadas de acordo com as características da média da população brasileira. "Mas as pessoas são diferentes. Sabendo mais sobre o paciente, o médico pode fazer combinados personalizados que aumentem o bem-estar e diminuam os efeitos colaterais das drogas", acrescenta.

Menor custo. Outra estratégia para diminuir o preço da cirurgia é acenar com técnicas que parecem ser pouco agressivas. Usar anestesia local para realizar uma lipoaspiração, por exemplo, pode parecer mais simples do que se feita com peridural ou geral (veja quadro com os tipos de anestesia). Não é bem assim.

"Quando se faz procedimentos longos, em áreas extensas do corpo, com anestesia local, podem surgir complicações", diz o presidente da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, Carlos Eduardo Lopes Nunes. "Se a cirurgia demora, será preciso reaplicar a anestesia e haverá risco de intoxicação do paciente. Em vez de assumir que é uma cirurgia e tratar como tal, está se minimizando o procedimento. E muitos optam por isso para gastar menos."

Natale Gontijo, cirurgiã assistente da equipe de Ivo Pitanguy, usa a local para cirurgias de pequeno porte, com menos de uma hora de duração. "Mesmo assim, deve ter um anestesista na sala."

Procedimentos cirúrgicos, por mais simples que pareçam, não podem ser realizados em consultórios. "Cirurgia plástica deve ser feita em uma clínica com recursos hospitalares", diz o plástico Luis Paulo Barbosa, dono do Centro Paulista de Cirurgia, que tem 11 leitos e faz 400 operações estéticas por ano. O local tem de estar equipado para emergência. Paradas cardíacas e outras reações adversas podem acontecer e o local tem de estar preparado para isso.

"Já soube de casos de pacientes que fizeram lipoaspiração, com anestesia local, num consultório. E o paciente ficou todo o procedimento em pé." Barbosa explica que o cirurgião achou que o resultado final poderia ser melhor do que se fosse feito na horizontal, numa maca. "Dá para imaginar o sofrimento e o desconforto do paciente."

Sequelas. Além de professor de Medicina, Posso também é advogado, especialista em defender colegas processados por pacientes com sequelas pós-operatórias. "Tenho três casos em que os pacientes ficaram com problema de locomoção depois da peridural. Uma ficou paralítica", conta. "Um em cada 15 mil pacientes que recebem peridural pode ter algum tipo de sequela neurológica." Nos Estados Unidos, usa-se a anestesia geral para turbinar as mamas. "Isso porque os processos médicos são frequentes e caros", relata.

Vaidosa, a fazendeira Graça Lemos de Lemos passou há 20 dias por uma troca de prótese de mama. Foi operada com anestesia geral. "Tive uma parada cardiorrespiratória quando nasceu meu segundo filho", explica. "Foi horrível. Estava consciente, brigava para respirar, até que apaguei. Acordei com o médico em cima de mim, fazendo massagem cardíaca para me ressuscitar. Desde então, só opero com geral."

A segurança da técnica está no fato de o paciente já estar entubado. "No caso de uma parada cardiorrespiratória, ele corre menos risco de ficar sem oxigênio e sofrer alguma lesão cerebral por conta disso", diz o anestesiologista Danilo Petrillo. "Você não perde tempo em entubá-lo." Num caso de emergência, os médicos correm contra o relógio.

No Brasil, a maioria das clínicas prefere aplicar a peridural em cirurgias de implante de prótese de mama. Vale destacar que ela é, em média, 40% mais barata que a geral. Mas não é só uma questão de preço. Há médicos que preferem a peridural à geral. É o caso de Barbosa, por exemplo. "Nunca tive problemas com a peridural. Além disso, é uma técnica com vantagens. Em procedimentos da cintura para cima, causa menor sangramento que a geral."

Apesar de conhecer as vantagens da peridural, Natale, da equipe de Pitanguy, fica com a geral. " Se tiver qualquer problema durante a peridural, o anestesiologista vai ter de reverter para geral, para poder controlar melhor", explica. "Eu não usaria peridural na minha mãe, por que usaria no paciente?"

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