Pagode baiano faz sucesso e sai do gueto

Após anos relegado a áreas periféricas, ritmo contagia Salvador

Tiago Décimo, O Estadao de S.Paulo

06 Fevereiro 2010 | 00h00

Muita gente se surpreendeu quando Ivete Sangalo, em pleno show do Festival de Verão, no dia 21, começou a entoar os versos "Eu sou o lobo mau-au-au / vou te comer / vou te comer", do hit Lobo Mau, da banda O Báck. Os integrantes do grupo, três irmãos, autores da canção, assistiam ao show, na plateia. Entraram em êxtase. "Nem acreditei naquilo", diz o vocalista, Everaldo Junior, o Keno. Naquele momento, a rainha do axé reintegrava o chamado pagode baiano ao palco principal da folia de Salvador.

O pagode baiano é a versão do funk carioca, nos refrões simples e apimentados e no público-alvo. Popular nas áreas periféricas de Salvador, costuma ser rejeitado pela população dos bairros mais nobres, mas extrapola os limites da cidade - ou do Estado - de tempos em tempos. Os mais conhecidos representantes do ritmo, fora da Bahia, foram os grupos É o Tchan (de Segura o Tchan, Dança da Cordinha, Ralando o Tchan e Dança do Põe-Põe, entre outros) e a Cia. do Pagode (de Na Boquinha da Garrafa), que estouraram no Brasil no fim dos anos 1990. Desde aquela época, o estilo voltou a ser música de gueto, com raras exceções.

Neste ano, porém, promete voltar com força ao cenário musical baiano, pelo menos durante a folia. O processo foi iniciado nas rádios no fim do ano passado, quando Lobo Mau passou a figurar entre as músicas mais pedidas. Segundo Keno, o grupo não esperava tanta aceitação da música. "Era apenas para ser uma versão bem-humorada de uma historinha conhecida", conta. A repercussão da canção entre as crianças faz lembrar o sucesso de Carla Perez entre os pequenos, quando era dançarina do É o Tchan.

Outra representante do ritmo, Me Dá a Patinha, da banda Black Style, logo entrou no rol das músicas que pegaram no verão. Narra a história - real, segundo o vocalista Robysão - de Marcela, uma groupie que se envolveu com todos os integrantes da banda e inspirou versos como "Me dá, me dá patinha / Me dá, sua cachorrinha".

Com a notoriedade, as duas bandas ganharam desfiles no Circuito Osmar (Campo Grande) - o mais tradicional da folia baiana. O Báck tem apresentação prevista para o sábado e o Black Style para segunda. Além disso, devem ter suas criações tocadas repetidas vezes por outras bandas, seguindo o sucesso que vêm obtendo nas rádios.

Se as letras com duplo sentido voltam à tona na folia baiana, as coreografias não ficam atrás. Nesse tópico, o destaque é da música Rebolation, do grupo Parangolé, também representante do pagode baiano.

A inspiração foi a dança de mesmo nome, que se tornou moda nas raves e, com a banda baiana, ganhou ritmo de axé.

Nas aulas de swing baiano das academias de Salvador, não há nada mais popular. "As pessoas gostam porque é uma dança sensual e fácil de aprender", explica a instrutora Nádia Campos. Em resumo: mãos alternadamente levadas à cabeça e movimentos ritmados dos quadris dão conta do recado. Quem quiser levar mais a sério precisa fazer alguns movimentos com os pés também.

A música caiu tanto no gosto popular que virou vinheta até de locução esportiva de rádio. A própria Ivete Sangalo entrou no clima e, ainda no Festival de Verão, mostrou como os fãs podem seguir a coreografia de sua aposta para o carnaval, Na Base do Beijo. Em poucos minutos, a plateia do palco principal do festival, que naquela noite reunia 70 mil pessoas, estava toda coreografada. Durante a passagem dela pelos circuitos da folia, a cena deve se repetir.

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