''Pais devem respeitar infância''

Para especialista em distúrbios infantis do desenvolvimento, há um excesso de pressão em cima das crianças

Entrevista com

Simone Iwasso, O Estadao de S.Paulo

26 Dezembro 2009 | 00h00

O psiquiatra pediátrico Francisco Assumpção, professor do Instituto de Psiquiatria da USP e especialista em distúrbios do desenvolvimento, defende que escolas e pais devem respeitar o ritmo de desenvolvimento das crianças. "Aos 5 anos, a grande maioria das crianças não tem nem coordenação motora para escrever", afirma. Segundo ele, é dos 2 aos 6 anos que a criança adquire habilidades cognitivas e motoras necessárias para a alfabetização.

Na avaliação do senhor, qual o benefício e o risco da alfabetização antes dos 5 ou 6 anos?

Nas últimas décadas, as crianças se alfabetizavam a partir dos 7 anos. E faziam isso sem grandes dificuldades. Depois, anteciparam para os 6 anos. Agora, eu recebo no consultório um número cada vez maior de crianças de 4 anos que foram encaminhadas pela escola porque estavam com dificuldades de aprendizagem. Nesta idade, criança nenhuma tem dificuldade de aprendizagem. Ela não está pronta. Não tem nem coordenação para escrita. Algumas vão ter, mas não é o esperado, não é a regra.

Qual a abordagem adequada nesse tipo de caso?

É preciso conversar com os pais e explicar que a criança precisa ter oportunidades para se desenvolver. A criança para se alfabetizar precisa ter algumas funções adquiridas antes, até para ela conseguir prestar a atenção. É preciso respeitar a infância. Eles precisam entender isso, porque muito dessa pressão em cima da criança, do desempenho dela, da competição, vem dos pais. Eles têm algumas exigências com as crianças que não fazem sentido. A criança precisa ter experiências para se desenvolver como um todo, para estar motivada. Criança motivada e com autoestima alta aprende rapidinho.

Muitos pais e colégios argumentam que o mundo de hoje está tornando as crianças mais precoces para o aprendizado. O senhor concorda?

O ambiente externo pode estar mudando, ter mais estímulos, mais letramento. Mas a biologia da criança, sua capacidade cognitiva, não muda assim rapidamente. O homem não muda em alguns anos. Algumas coisas precisam de etapas para acontecer. S.I.

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