Clayton de Souza/AE
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País fez só 6 transplantes com cordão congelado em bancos particulares

Números reacendem discussão sobre a utilidade de pagar para congelar células do cordão umbilical, já que o serviço pode ser feito na rede pública caso uma família tenha um filho com doença genética e queira congelar o sangue de outro sadio para uso futuro

Fernanda Bassette, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

Sete anos após a implantação dos bancos de sangue de cordão umbilical no Brasil, 75% das células congeladas no País (34 mil) estão armazenadas em 15 bancos privados. Esse material, no entanto, gerou apenas 6 transplantes.  

 

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Em contrapartida, os 6 bancos públicos de cordão, cujas células podem ser usadas por qualquer pessoa, reúnem 11 mil bolsas congeladas e já fizeram 118 transplantes até o mês passado.

O levantamento inédito sobre o número de transplantes usando bolsas de sangue de cordão foi feito pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) a pedido do Estado.  

 

O caso reacende a discussão sobre a real utilidade de a família pagar para manter as células do cordão congeladas em bancos privados. Além de desembolsar cerca de R$ 4 mil pela coleta, os pais ainda precisam pagar cerca de R$ 900 por ano para manter o material congelado.

Outro detalhe que limita a utilidade dos bancos privados: as bolsas congeladas nesses locais só podem ser usadas para uso autólogo (pelo próprio paciente). Segundo a Anvisa, dos seis transplantes realizados por esses bancos, apenas um cumpriu esse requisito - os outros cinco foram transplantes alogênicos (para algum parente) e só foram realizados por decisão judicial.

Pouca chance. Segundo Luiz Fernando Bouzas, coordenador do BrasilCord (rede brasileira de bancos de sangue de cordão umbilical), outra limitação dos bancos particulares é que a chance de uma família usar as células para o próprio filho é muito baixa, já que as doenças mais comuns tratadas com o transplante de cordão (leucemias, talassemias, anemias falciformes) têm origem genética e, por isso, as células também estariam doentes.

"O fato de os bancos privados terem feito apenas um transplante autólogo interfere diretamente na justificativa de que não vale a pena pagar para congelar. A lógica deles é congelar de qualquer jeito, mas a utilização dessas bolsas para uso próprio é praticamente zero", diz Bouzas.

O hematologista Vanderson Rocha, chefe do setor de transplante de medula óssea do Instituto da Criança do HC, também é contra pagar pelo congelamento. "O fato de fazer um único transplante autólogo mostra que o banco mascara o que ele vende, já que essas células não poderiam ser usadas para uso em parentes. Os outros cinco transplantes que foram feitos com as bolsas do banco privado poderiam estar no banco público e a família não teria custos."

Isso porque, caso uma família tenha um filho com alguma doença genética e queira congelar o sangue de cordão de um filho sadio para usar no tratamento do irmão, se necessário, ela pode congelar essas células no banco público. O material não pode ser usado por outra pessoa.

"É o que chamamos de congelamento familiar dirigido. A família tem o direito de congelar de graça, caso tenha histórico de doenças genéticas. No Inca, essas bolsas ficam em outro setor", afirma Bouzas.

Vantagens no futuro. A médica Adriana Homem, diretora médica do Banco de Cordão Umbilical (BCU), maior rede privada de bancos de sangue de cordão da América Latina, contesta o fato de poucos transplantes terem sido feitos com as bolsas congeladas nos bancos particulares.

Ela diz que essas células poderão ser usadas no futuro, no tratamento de outras doenças que não sejam do sangue, como diabete, problemas cardíacos, lesões ósseas e até tetraplegia.

"Somos vistos como inimigos, mas temos o mesmo objetivo dos bancos públicos, que é salvar vidas. Os bancos privados são muito novos. E ainda nem deu tempo de essas crianças ficaram doentes para usarem essas bolsas", diz Adriana. O BCU tem 2 mil bolsas e ainda não fez nenhum transplante autólogo. Três pedidos de transplante alogênico estão em fase de testes e aguardam decisão judicial.

Nelson Hamerschlak, coordenador do programa de oncologia e hematologia do Hospital Albert Einstein, diz não ter dúvidas da utilidade dos bancos públicos. "As doenças que os bancos privados prometem tratar ainda estão em fase de pesquisa absolutamente iniciais. Não vejo aplicabilidade para tratar essas doenças nem a curto nem a médio nem a longo prazo", diz.  

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