Pais, mães, filhos, irmãos, todas as outras histórias

Vertente familiar vira tendência forte na programação de hoje

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

24 de outubro de 2009 | 00h00

Douglas Sirk, o rei do melodrama que Rainer Werner Fassbinder tanto idolatrava, fez filmes de grande sucesso de Hollywood, mas até hoje ainda existe gente que resiste a considerá-lo o grande autor que é. Sirk trabalhava no registro do cinema de gênero, mas em seus filmes a origem lembrava o próprio cineasta, é a tragédia grega, que ele conhecia tão bem, tendo sido, também, grande diretor de teatro. Basta assistir a Imitação da Vida, que acaba de sair em DVD. O filme tem 50 anos - é de 1959 - e permanece novo em folha. Zero bala.

O ideal de Sirk, ele relatava, é a tragédia grega, porque nela "tudo ocorre em família, e no mesmo lugar". A 33ª Mostra está contando várias histórias de famílias. Você, provavelmente, já leu a entrevista acima, com o diretor de O Que Resta do Tempo, Elia Suleiman. Já viu que é possível fazer uma ponte entre o filme dele e o maravilhoso Still Walking (Seguindo em Frente), de Hirokazu Kore-eda.

Mas também é possível ligar O Que Resta do Tempo com Amreeka, de Cherlen Dabis. Suleiman, lançado no mundo pela diáspora palestina, sabe que, ao abandonar sua terra, ele é estrangeiro em qualquer lugar do mundo. Esse sentimento é compartilhado pela palestina de Amreeka, uma divorciada que vive com o filho na Cisjordânia e agarra a oportunidade de se juntar à irmã, nos confins do Illinois. Estrangeiros somos todos - a mãe que busca a filha em London River e que teme que ela possa estar implicada nos atentados terroristas, na capital inglesa. O diretor Rachid Bouchareb cria esse personagem de muçulmano - como ele - que também busca o filho e o ator é tão bom que Sotigui Kouyate venceu o prêmio de interpretação masculina em Berlim justamente por London River.

Outra história de família também oferece o deslumbrante Distante Nós Vamos, de Sam Mendes, que já assinou um dos maiores filmes do ano - Foi Apenas Um Sonho - e agora renova, reinventa o filme de estrada. A mais inusitada dessas histórias, não a melhor, é a de Ricky, o novo François Ozon. Mais do que sobre um bebê que nasceu com asas, o filme é sobre família, sobre essa mãe sofredora - como a de London River - e de como é possível, e necessário, superar a dor da perda. E não se pode esquecer de outras mães. A de Vencer, de Marco Bellocchio; a de Independência, de Raya Martin; e a de Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee. Não importa o gênero nem o estilo, muito menos a procedência. A família dá as cartas na Mostra.

Serviço

Aconteceu em Woodstock. Unibanco Arteplex 2 - Hoje, 0 h

Amreeka. Espaço Unibanco 3 - Hoje, 22 h

Distante Nós Vamos. Reserva Cultural 1 - Hoje, 13h50

Independência. Unibanco Arteplex 1 - 3.ª. 17h40

London River. Cinema da Vila - Hoje, 17h40

Ricky. Espaço Unibanco 3 - Hoje, 0h

Seguindo em Frente. Cine Tam - Sala 3 - Hoje, 19 h

Vencer. CineSesc - 4.ª, 23h30

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