País pode perder chance de usar o maior telescópio

Brasil se comprometeu a ratificar adesão a observatório europeu em 2011, mas acordo nem foi enviado para votação no Congresso

HERTON ESCOBAR , ENVIADO ESPECIAL, ANTOFAGASTA, CHILE, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2012 | 03h06

O Brasil corre o risco de perder sua vaga no projeto de construção do maior telescópio do mundo caso não ratifique seu contrato de adesão ao Observatório Europeu do Sul (ESO) neste semestre, alerta o diretor-geral da organização, o holandês Tim de Zeeuw. O acordo foi assinado no final de 2010 pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), com promessa de que seria aprovado até o fim de 2011, mas não foi enviado para votação no Congresso - que precisa ratificar o contrato, por se tratar de um acordo entre os governos do Brasil e dos 14 países europeus que fazem parte do ESO.

"O contrato diz que, após um ano, ambos os lados podem pedir renegociação", disse Zeeuw, em almoço com jornalistas brasileiros em Santiago, no Chile, país onde estão localizados os telescópios do ESO. E deixou claro que, se não houver uma sinalização forte de avanço nos próximos meses, os europeus pedirão essa renegociação, sem garantias de que os descontos concedidos ao Brasil na primeira negociação serão mantidos. Pelo contrato atual, o País tem desconto de 30% no custo total de participação pelos primeiros dez anos. Em vez de 370 milhões, poderá pagar 260 milhões, além de outros benefícios.

"Os países-membros concordaram com esses termos porque viram a participação do Brasil como vantagem estratégica, mas não posso garantir que isso será mantido se tivermos de renegociar o contrato", alertou Zeeuw. Na pior das hipóteses, disse ele, o convite poderá ser revogado. "Não estou fazendo uma ameaça, estou apenas afirmando um fato", disse. "Houve uma decisão unânime por parte dos membros de assinar o acordo com o Brasil e esperamos que o País honre seus compromissos."

Zeeuw foi simpático, educado e diplomático durante a entrevista. Mas ficou óbvio que a paciência e a boa vontade dos europeus estão no limite. "É um bom contrato, então não entendo por que deveríamos renegociá-lo. Se não houver progressos significativos até a metade do ano, todo mundo ficará muito infeliz."

O contrato foi assinado no final da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro Sérgio Rezende. Desde então, Zeeuw diz que não recebeu nenhum comunicado do ministro Aloizio Mercadante, com quem tentou se reunir, sem ser atendido. Assim, é natural que os europeus se perguntem se poderão contar com o Brasil em seus próximos projetos.

O mais audacioso deles é a construção do Telescópio Extremamente Grande Europeu (E-ELT, em inglês), projetado para ser o maior instrumento de pesquisa astronômica do planeta, com um espelho coletor de quase 40 metros de diâmetro - cinco vezes maior que os maiores telescópios atuais. O custo estimado é de 1 bilhão, previsto para entrar em operação em dez anos.

O projeto está pronto, o local de construção foi escolhido (também nos Andes chilenos) e o dinheiro está garantido por parte dos europeus. Se o Brasil não ratificar sua adesão ao ESO, não só ficará fora do E-ELT como porá em risco o andamento do projeto para o outros participantes. "Não podemos começar a construir o E-ELT sem o Brasil", disse Zeeuw. "Quase todo mundo já está pronto. Mas precisamos saber exatamente o que vai acontecer daqui para frente."

Apesar dos custos, a maior parte dos astrônomos brasileiros apoia a entrada do País no ESO, o que garantiria direitos iguais de uso da infraestrutura de pesquisa do observatório.

Para o astrônomo Claudio Melo, que trabalha para o ESO há dez anos, o Brasil não pode abrir mão da oportunidade. "É um bonde que só vai passar uma vez. Se não pegarmos agora, não pegamos nunca mais." A participação de um país é permitida apenas via convite formal, e o Brasil seria o primeiro não europeu a fazer parte do consórcio.

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