''País vai acelerar troca de moedas com vizinhos''

ENTREVISTA

Adriana Fernandes, AGÊNCIA ESTADO, O Estadao de S.Paulo

25 de novembro de 2009 | 00h00

Luiz Eduardo Melin: secretário de Reformas Econômico-Fiscais da Fazenda

O Ministério da Fazenda resolveu acelerar as negociações com os países sul-americanos para a implantação de acordos bilaterais de pagamento em moeda local no comércio internacional. O governo Lula quer que o seu sucessor encontre o sistema em vigor ou em fase de implementação em pelo menos metade da região, anuncia o secretário de Reformas Econômico-Fiscais do Ministério da Fazenda, Luiz Eduardo Melin.

O sistema já funciona com a Argentina e está sendo montado com o Uruguai. Ao lado do economista Emílio Garófalo, o secretário conduz as negociações desses acordos com a Colômbia, Peru e Chile para que se possa trazer "realismo cambial" à região. Ele descarta, no entanto, que seja prioridade um acordo desse tipo com a China.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Qual a importância dos acordos de sistema de pagamento moeda local, o SML?

É um ótimo instrumento para as micro, pequenas e médias empresas participarem do comércio exterior. Elas não têm uma estrutura administrativo-financeira que as permita ficar confortáveis trabalhando com o risco cambial. Com o SML, o risco cambial é eliminado. Uma segunda vantagem é a eliminação do custo financeiro da intermediação bancária. Para fechar qualquer negócio, a empresa tem que fazer o contrato de câmbio e os bancos cobram um custo por esse serviço.

Esse custo é elevado?

Envolve custo administrativo e de remessas. Ele se torna tão mais importante quanto menor é o tamanho da operação. O sistema produz também uma estimativa de uma taxa de câmbio entre as moedas. No caso do peso argentino e o real, diferentemente do que ocorre hoje em dia com a maioria dos países, temos uma cotação direta, uma taxa de câmbio entre as duas moedas que é verdadeira. Um taxa genuína porque resulta de oferta e demanda dos dois lados.

Qual a vantagem de ter essa taxa?

Ele responde aos fluxos comerciais dos países. Quanto maior for o fluxo canalizado ao comércio em moeda local, mais representativo ele se torna, permitindo planejamento monetário dos dois lados da fronteira. Temos uma noção melhor, independentemente dos movimentos real-dólar e dos movimentos peso-dólar, que podem estar sendo afetados por fatores que têm a ver com esses países, mas não necessariamente com o comércio local.

Qual relação da adoção desse sistema com a discussão atual de enfraquecimento do dólar?

Ninguém se ilude que o dólar deixou de ser a moeda de referência internacional. O Brasil investiu muito para constituir reservas em dólar. A China também fez o mesmo. Às vezes as pessoas dizem que a China está querendo solapar a importância do dólar. Do ponto de vista da equipe econômica, temos consciência de que assistimos a uma queda de braço entre a China e os Estados Unidos. Eles alegam que os chineses estariam mantendo a moeda desvalorizada por métodos artificiais. É claro que a tendência atual do dólar é de desvalorização. É algo fundamental na estratégia do Brasil e tem de ser levada em conta.

A ampliação de acordos em moeda local pode ajudar nesse cenário?

Em nenhum momento alegamos que essa seja uma alternativa ou uma estratégia para substituição do dólar. Não vemos assim. Achamos que é uma alternativa comercial para os países da região e um catalisador para aumentar o comércio regional.

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