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Países com mais dívida têm menos espaço para agir contra covid-19, diz Banco Mundial

Economista-chefe do Banco Mundial para América Latina e Caribe, Martin Rama, destacou a necessidade de ampliar programas sociais para abarcar o maior número possível de trabalhadores que perderão sua fonte de renda

Idiana Tomazelli, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2020 | 18h14

BRASÍLIA | Países com dívida mais elevada e com déficits fiscais anteriores à crise do novo coronavírus devem ter um espaço mais limitado para agir, avaliou neste domingo, 12, o economista-chefe do Banco Mundial para América Latina e Caribe, Martin Rama.

A instituição divulgou suas novas projeções de crescimento para a região. A expectativa é que a atividade econômica no Brasil encolha 5,0% neste ano, um dos piores desempenhos entre os grandes países latinos.

Se confirmada a projeção do Banco Mundial, será a maior recessão que o Brasil enfrentará em 120 anos. Segundo estatísticas históricas do IBGE, não há registro de uma queda tão grande da atividade desde 1901.

Até hoje, o maior tombo na economia ocorreu em 1990, quando houve retração de 4,35% - foi o ano do Plano Collor I e do confisco do dinheiro dos brasileiros. A segunda maior queda já registrada foi em 1981, quando o PIB caiu 4,25% na esteira da crise da dívida externa brasileira.

Ao comentar as limitações fiscais, Rama não citou nenhum país específico. O Brasil, porém, já caminhava para ter em 2020 o sétimo ano seguido de rombo nas contas. A dívida bruta do País está em 76,5% do PIB, segundo dados de janeiro, um patamar considerado elevado para países emergentes. “O quanto de assistência vai depender do espaço fiscal de cada país”, disse Rama.

Economistas já aventam a possibilidade de a dívida beirar os 100% do PIB com as medidas que estão sendo adotadas pelo governo Jair Bolsonaro no combate à crise.

Como prioridades, o Banco Mundial destacou a necessidade de ampliar programas sociais para abarcar o maior número possível de trabalhadores que perderão sua fonte de renda devido à paralisação das atividades decorrente do isolamento social recomendado por autoridades de saúde.

No Brasil, o governo tem priorizado iniciativas temporárias, como o auxílio emergencial de R$ 600 a trabalhadores informais, que tem duração de três meses. Questionado se ações com esse período de tempo são suficientes, Rama disse que elas vão na direção correta. “O ambiente é de incerteza. Respostas às que se pode agregando tempo é melhor do que fazer um programa longo que, no fim, pode ficar por tempo além do necessário”, afirmou o economista.

Segundo Rama, um dos maiores desafios da região é o fato de que os índices de informalidade na América Latina são maiores do que em países desenvolvidos. “O sistema de seguro-desemprego não cobre todo mundo”, afirmou.

Além das medidas de proteção social, os governos precisarão monitorar os riscos de uma crise financeira e, eventualmente, recapitalizar bancos para impedir impactos de proporções ainda maiores, alertou o Banco Mundial.

“Estamos tendo dificuldades financeiras internacionais, por capitais que saem, por empresas que não conseguem pagar dívidas”, disse Rama. Ele defendeu transparência nas ações governamentais nessas frentes para evitar a “socialização de perdas” de maneira injusta, que penalize a população mais necessitada.

“Temos experiências em que se teve que fazer compra de ativos de má qualidade, isso teve custos econômicos, de confiança. Por isso enfatizamos necessidade de planejamento. Se chegamos a ter que fazer isso, temos que fazer com cuidado”, ponderou. Segundo o economista, a comunicação nessa frente será quase como uma espécie de “pacto social”.

Até agora, as projeções do Banco mostram uma retomada já em 2021, com crescimento de 2,6% na América Latina e no Caribe e de 1,5% no Brasil. Rama reconheceu, porém, que há uma “margem enorme de incertezas” e que será necessário monitorar os reflexos da pandemia para eventualmente fazer novos prognósticos.

Para conseguir fazer seus cálculos, o Banco Mundial inclusive precisou incorporar mais dados e novas fontes de informação às suas análises. A instituição recorreu, por exemplo, a dados da Nasa e da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) sobre emissões de dióxido de nitrogênio, um poluente atmosférico emitido por chaminés industriais e cuja concentração pode servir de termômetro para o ritmo da atividade econômica. Na China, a concentração de NO² reduziu drasticamente no entorno de Pequim, capital do País.

 

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Banco Mundial projeta queda de 5% no PIB do Brasil devido a novo coronavírus

Se confirmada a projeção, será a maior recessão que o Brasil enfrentará em 120 anos. Segundo estatísticas históricas do IBGE, não há registro de uma queda tão grande da atividade desde 1901

Idiana Tomazelli, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2020 | 15h54
Atualizado 12 de abril de 2020 | 18h48

BRASÍLIA | A atividade econômica brasileira deve encolher 5% neste ano devido à crise provocada pelo novo coronavírus, projeta o Banco Mundial. O organismo multilateral divulgou hoje um relatório em que analisa os impactos da pandemia na América Latina.

Se confirmada a projeção do Banco Mundial, será a maior recessão que o Brasil enfrentará em 120 anos. Segundo estatísticas históricas do IBGE, não há registro de uma queda tão grande da atividade desde 1901. 

Até hoje, o maior tombo na economia ocorreu em 1990, quando houve retração de 4,35% - foi o ano do Plano Collor I e do confisco do dinheiro dos brasileiros. A segunda maior queda já registrada foi em 1981, quando o PIB caiu 4,25% na esteira da crise da dívida externa brasileira.

No conjunto da região, o PIB deve sofrer uma contração de 4,6% em 2020, segundo o Banco Mundial. A projeção não inclui a Venezuela, que já enfrentava uma forte crise antes mesmo da eclosão da pandemia da covid-19.

O economista-chefe do Banco Mundial para a região, Martin Rama, explicou que a pandemia impôs um “choque triplo” às economias latino-americanas. O primeiro deles ocorreu na demanda, com famílias comprando menos bens e serviços e grandes países como China demandando menos commodities. O segundo teve repercussões financeiras, com uma fuga de capitais estrangeiros maior até do que o observado na crise de 2008 e 2009. O último choque é de oferta, com as pessoas impedidas de sair para trabalhar.

Os dados fazem parte de um relatório semestral do escritório do economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe, intitulado “A economia nos tempos da covid-19”. Segundo o documento, o forte choque sofrido pelas economias exige respostas de políticas em diversas frentes: para apoiar os mais vulneráveis, evitar uma crise financeira e proteger os empregos.

Para ajudar os vulneráveis a enfrentar a perda de renda motivada pelo isolamento social, os programas atuais de proteção e assistência social “devem ser rapidamente ampliados e ter sua cobertura estendida”. Ao mesmo tempo, os governos devem considerar apoiar as instituições do setor financeiro e as principais fontes de emprego, diz o relatório.

“Precisamos ajudar as pessoas a enfrentar esses enormes desafios e garantir que os mercados financeiros e os empregadores sobrevivam à tempestade” afirma o vice-presidente interino do Banco Mundial para a região, Humberto López. “É preciso limitar os danos e lançar as bases para a recuperação o mais rapidamente possível.”

Ao fazer suas projeções, o próprio Banco Mundial reconhece que as circunstâncias econômicas estão mudando diariamente. A análise tomou como base informações dos países disponíveis até 10 de abril de 2020.

Entre os grandes países da América Latina, o Brasil só não deve ter desempenho pior em 2020 do que México (-6,0%), Equador (-6,0%) e Argentina (-5,2%). Países do Caribe sofrerão um baque devido aos impactos da pandemia sobre o turismo, uma fonte importante de renda nesses locais.

A recuperação no Brasil também deve ser mais lenta do que na média da região. O Banco Mundial espera avanço do PIB brasileiro de 1,5% em 2021 e de 2,3% em 2022. Para a América Latina e Caribe, a alta esperada é de 2,6% tanto em 2021 quanto em 2022.

Na avaliação do Banco Mundial, a pandemia da covid-19 contribui para um grande choque do lado da oferta. A demanda da China e de países desenvolvidos deve cair drasticamente, afetando os exportadores de commodities da América do Sul e os exportadores de serviços e bens manufaturados da América Central e Caribe.

Agravantes

Muitos países da região, porém, estão enfrentando a crise com um espaço fiscal limitado. O Banco alerta ainda que níveis mais elevados de informalidade no mercado de trabalho latino tornam mais difícil que os sistemas de proteção social atinjam todas as famílias. A proteção de todas as fontes de emprego também é mais incerta.

“Muitas famílias vivem ‘da mão para a boca’ e não dispõem de recursos para suportar os bloqueios e quarentenas necessários para conter a propagação da pandemia. Muitos também dependem de remessas internacionais, que estão em colapso”, diz a instituição, que defende a ampliação de programas de assistência social.

“Ao mesmo tempo, os governos terão que arcar com grande parte do prejuízo. Socializar esse prejuízo pode exigir a aquisição de participação em instituições do setor financeiro e empregadores estratégicos por meio de recapitalização. Esse apoio será essencial para preservar os empregos e possibilitar a recuperação”, afirma o relatório.

Para o Banco Mundial, um risco de uma crise financeira não pode ser totalmente descartado, dada a magnitude do choque, daí a necessidade de dar apoio a instituições desse setor. O Banco ressalta, no entanto, que qualquer medida nesse sentido deve ser transparente, com acordos sólidos para administrar os ativos recém-adquiridos.

O organismo multilateral ressaltou ainda que a América Latina assiste a uma saída de investimentos externos em portfólio muito maior do que na época da crise financeira global. “No nível doméstico, muitos devedores não serão capazes de cumprir suas obrigações ou solicitar renegociações, ou simplesmente ficarão inadimplentes”, diz o documento.

“Os governos da América Latina e do Caribe enfrentam o enorme desafio de proteger vidas e ao mesmo tempo limitar o impacto das consequências econômicas”, diz o economista-chefe do Banco Mundial para a região da América Latina e Caribe, Martin Rama. “Isso exigirá políticas coerentes e direcionadas em uma escala raramente vista antes.”

O Banco Mundial informou ainda em seu relatório que distribuirá até US$ 160 bilhões em apoio financeiro nos próximos 15 meses para ajudar os países a proteger os pobres e vulneráveis, apoiar as empresas e fortalecer o processo de recuperação econômica.

Governo trabalha para evitar que crise transitória tenha efeitos permanentes, diz secretário

O secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, disse ao Estadão/Broadcast que o governo trabalha para evitar que a crise provocada pela pandemia do novo coronavírus tenha efeitos permanentes sobre a economia brasileira. Ele respondeu a questionamentos enviados pela reportagem após o Banco Mundial ter divulgado projeção de queda de 5,0% no PIB brasileiro este ano.

“A crise externa, que surgiu fora do Brasil, se expandiu para todos os países do mundo, é sem paralelo na história recente. Estamos trabalhando para evitar que uma crise transitória tenha efeitos permanentes. Quanto mais tempo nossa economia permanecer fechada, maior será o efeito em termos de emprego e produção”, disse o secretário.

Sachsida afirmou que o governo “reagiu rápido e de maneira decisiva” ao apresentar um conjunto de medidas que, nos cálculos da equipe econômica, chegam a R$ 750 bilhões. “Salvar vidas é prioridade. Adicionalmente a isso, temos trabalhado para preservar empregos e empresas.”

 

 

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