PALAVRA DE ORDEM NOS LABORATÓRIOS É 'FILTRAR'

Nos laboratórios internos do Alpha Crucis, milhares de litros de água marinha são lentamente reduzidos a algumas dezenas de tubinhos congelados e filtros de papel do tamanho de bolachas, impregnados de algas e de bactérias microscópicas. A palavra de ordem nas bancadas flutuantes é "filtrar". "Vamos coar o Atlântico Sul inteiro", brinca o professor Frederico Brandini, do Instituto Oceanográfico da USP.

O Estado de S.Paulo

10 de março de 2013 | 02h07

O navio é, essencialmente, uma estação móvel de coleta e processamento de amostras. O primeiro laboratório, chamado "molhado", fica diretamente conectado ao convés, separado apenas por uma grande porta de madeira. Bem na frente dela, em meio a um emaranhado de tubos plásticos transparentes conectados a bombas e filtros, ficam as alunas de mestrado e doutorado Natascha Bergo e Catherine Ribeiro, do IO-USP, que são sempre as primeiras na fila para pegar água no convés. Vão e vêm a todo momento, carregando garrafões de dez litros embrulhados em sacos pretos - para evitar que as bactérias que acabaram de sair do mar, acostumadas ao escurinho das profundezas, se "assustem" com a luz do navio na superfície.

O objetivo da pesquisa é estudar a expressão genética das cianobactérias - bactérias marinhas que fazem fotossíntese. "Queremos saber quais genes estavam ligados ou desligados no momento da coleta, quando elas estão no seu ambiente natural, por isso é importante evitar que elas mudem de comportamento (e alterem sua expressão gênica) ao serem retiradas do mar", diz Catherine.

Dez litros de água de cada profundidade são lentamente bombeados através de filtros com poros "invisíveis" de 0,2 micrômetro cada um; tão apertados que nem as bactérias conseguem passar por eles. "A água que sai na outra ponta é completamente estéril, não tem nada", diz Catherine. Os filtros são, então, colocados em tubinhos plásticos e congelados para transporte. Um para estudo de DNA, outro de RNA.

Na outra ponta da mesa, o estudante Vadim Harlamov passa horas despejando amostras de água em uma sequência de filtros que, no fim das contas, permitirão aos cientistas medir as concentrações de carbono, nitrogênio, fósforo e outros elementos básicos da matéria orgânica em cada profundidade.

No laboratório vizinho, o professor Tarcísio Cordeiro, da Universidade Federal da Paraíba, vira noites na frente de um microscópio, analisando organismos planctônicos que ele extrai de amostras de água coadas com um filtro de 10 micrômetros. Pequenas plateias se formam ao seu redor de tempos em tempos para observar os estranhos seres microscópicos que aparecem na tela de visualização. Entre eles, belas algas unicelulares revestidas com intricadas carapaças de vidro, chamadas diatomáceas, e um monte de "bichos" agitados, chamados dinoflagelados, que correm e rodopiam de um lado para outro como loucos.

"São organismos que parecem muito primitivos, mas que já estão aqui há muito mais tempo do que nós, aguentando muito mais tranco do que nós", elogia Cordeiro.

Cada um desses microrganismos, isoladamente, não faz muita diferença no mundo. Somados, porém, as cianobactérias e o fitoplâncton são responsáveis por quase 50% da fotossíntese do planeta - e, portanto, quase 50% do oxigênio na atmosfera, segundo os pesquisadores.

"Tudo que uma árvore faz na superfície acontece em uma única célula de fitoplâncton no mar", compara Brandini. Basta respirar para entender a importância de estudá-las. / H.E.

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