Palestinos lembram a Nakba, 'tragédia' da criação de Israel

Manifestações marcam o aniversário de 60 anos do Estado judeu e a perda de terras palestinas

Agências internacionais, BBC

15 de maio de 2008 | 07h40

Os palestinos marcam nesta quinta-feira, 15, com marchas e eventos o aniversário de 60 anos do Nakba, ou "Tragédia", como eles chamam a criação do Estado de Israel e a conseqüente perda de suas terras. Vestidas de preto, milhares de pessoas iniciaram por volta do meio-dia uma manifestação em Ramala, sede da Autoridade Nacional Palestina (ANP) e onde foi realizada uma cerimônia de luto diante do túmulo de seu líder histórico, Yasser Arafat, junto à Muqata (Presidência palestina). Dirigentes de todas as facções que integram a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), criada por Arafat, lideram a manifestação, com a participação de homens, mulheres e crianças, e nas quais foram exibidos cartazes e bandeiras palestinas. "O direito ao retorno não é negociável", "não à normalização com o ocupante", "passaram 60 anos e passarão 100, mas chegará o dia, a justiça prevalecerá" são alguns lemas escritos nos cartazes. Entre os participantes da manifestação - sem a presença do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP) e sucessor de Arafat, Mahmoud Abbas -, foi distribuído um texto aprovado pelo Parlamento palestino que afirma que "alguns palestinos estão mortos, alguns estão vivos, mas a maioria ainda não nasceu". A manifestação ocorre em paralelo a outras em várias cidades da Cisjordânia, como Belém, e no término está previsto o lançamento de 21.915 balões, um por cada dia desde a criação do Estado judeu. O dia de luto também é lembrado na Faixa de Gaza, sob cerco israelense e onde o movimento islâmico Hamas convocou uma manifestação junto à passagem de Erez, que liga o território palestino a Israel.As aulas foram suspensas em escolas em Gaza e na Cisjordânia. Refugiados palestinos no Líbano planejam uma marcha até a fronteira israelense para a formação de um cordão humano. O evento foi batizado de "A Marcha do Retorno".  Cerca de 700 mil palestinos fugiram de suas casas ou foram expulsos em 1948, quando o Estado israelense foi criado. Eles se tornaram refugiados em terras da Cisjordânia ou da Faixa de Gaza ou países vizinhos. Calcula-se que hoje o número de refugiados ultrapasse os 4 milhões.  O direito desses refugiados retornarem ao país sempre foi considerado o maior obstáculo para um acordo de paz entre israelenses e palestinos. Na quarta-feira, as lideranças dos principais partidos políticos palestinos, o Fatah e o Hamas, declararam que nunca vão desistir do direito ao retorno. "Israel não conseguiu apagar o Nakba da memória de sucessivas gerações", disse o presidente palestino, Mahmoud Abbas. "Eles pensaram que talvez os mais velhos fossem se esquecer, mas hoje vemos que nem os mais velhos, nem os jovens se esqueceram", disse ele. Bush Os eventos palestinos coincidem com a visita do presidente americano George W. Bush a Israel, onde participa das celebrações dos 60 anos da criação do país.  Diferentemente de sua visita anterior, em janeiro, Bush não vai aos territórios palestinos. Está previsto um encontro do líder americano com o presidente palestino, Mahmoud Abbas, no Egito, no dia 18. Ao ser perguntado se a presença de Bush em Israel no dia do Nakba não seria interpretada pelos palestinos como sinal da falta de neutralidade do suposto mediador do conflito, o conselheiro de Segurança Nacional americano, Stephen Hadley, disse: "Estamos indo a Israel para celebrar o aniversário da fundação do Estado judeu". "Mas reconhecemos que isso resultou em dificuldades para muitos palestinos." Na quarta-feira, Bush classificou Israel de "o maior amigo e aliado americano no Oriente Médio".  Bush disse que o país, "assim como outras democracias, vem sendo ameaçado por extremistas e terroristas".  "A América representa paz, assim como Israel", disse ele em Jerusalém.   Mas o primeiro dia da visita de Bush foi marcado por novos episódios de violência na região. Uma operação militar israelense na Faixa de Gaza matou quatro pessoas.  Em Israel, cerca de 14 pessoas ficaram feridas quando um foguete palestino atingiu um shopping center na cidade de Ashkelon. Nesta quinta-feira, o presidente americano deve falar ao Parlamento israelense. Um dos objetivos da visita de Bush é impulsionar as negociações de paz entre israelenses e palestinos, mas analistas acreditam que existem poucas chances de um acordo ainda durante seu mandato, que termina em janeiro. (Com BBC Brasil e Efe)

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