STEPHEN CROWLEY/NYT
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Palhaçada americana

Maioria republicana na Câmara tem direito de controlar o poder do Executivo,mas levou, desnecessariamente, o planeta todo à beira de uma crise financeira

Kenneth Serbin, O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2013 | 15h28

Como muitos americanos, fiquei aflito, indignado e irritado com a paralisação do governo, encerrada na noite de quarta-feira, depois de 16 dias.

Enquanto o mundo aguardava que o Congresso americano acabasse com a angustiante paralisação econômica, provocada pela odiosa disputa entre o Partido Democrata e o Republicano em torno do Obamacare, senti-me particularmente motivado a compartilhar minhas reflexões sobre o sistema de saúde dos EUA com o presidente da Câmara, John Boehner, o deputado republicano de Ohio que tem duelado incansavelmente com o presidente Barack Obama.

“Prezado presidente Boehner”, começava o fax que enviei a seu gabinete durante o desenrolar da votação. “Sou um cidadão originário de Ohio e atualmente residente em San Diego. Acompanhei sua carreira e respeito suas realizações e sua capacidade de liderança.”

“Entretanto, estou consternado pelo fato de o debate nacional sobre a reforma da saúde ter tomado um rumo muito pouco saudável e extremamente improdutivo.”

“Vi minha mãe sucumbir à doença de Huntington, e eu mesmo enfrento a ameaça dessa doença; portanto testemunhei em primeira mão e experimentei pessoalmente o terrível drama de nosso inadequado sistema de saúde para pessoas com problemas neurológicas e outros carregados de um pesado estigma.”

Enviei a Boehner cópia de um artigo online que eu acabara de publicar naquela tarde, destacando um trecho que enfatizava as graves consequências da minha impossibilidade de usufruir do sistema de saúde pela ausência de uma proteção adequada dos direitos dos pacientes. “Com medo de ser excluído, não recorri ao sistema que supostamente deveria me proteger.”

No artigo, expliquei que desde 1995 vinha ocultando do meu plano de saúde o risco de desenvolver essa doença cerebral incurável. Para proteger-me da discriminação ou da perda de cobertura no caso de uma mudança de emprego ou de outro imprevisto, procurei a clínica de um hospital universitário. Paguei as consultas do próprio bolso e comecei um registro médico completamente separado de todos os outros prontuários do plano de saúde. Tratei da doença como algo completamente distinto de minha estratégia de saúde.

Então, a aprovação da Lei de Não Discriminação das Informações Genéticas, sancionada em 2009, e agora a implementação do Obamacare, começaram a criar um novo clima político e social no nosso país, favorável à transparência da medicina e à afirmação dos direitos dos pacientes. A lei proíbe o uso discriminatório da informação genética pelos empregadores, e, pela primeira vez, agora o Obamacare proíbe a negação de cobertura por doenças preexistentes.

Consequentemente, há pouco resolvi tomar uma decisão importante: finalmente informei a meu plano de saúde o risco de eu vir a apresentar a doença de Huntington. Senti-me livre de um fardo. Afinal, o primeiro passo do paciente em qualquer tratamento é fornecer ao médico um quadro completo do próprio perfil de saúde.Também me sinto extremamente aliviado e esperançoso com o fato de o tratamento da doença ser integrado à estratégia global de cuidar da minha saúde.

O fim de dificuldades como essa parece uma questão de bom senso. Entretanto, nos dias de hoje, há poucas coisas de bom senso no sistema político americano. Além do discurso repleto de ressentimento de republicanos e democratas, o que irrita muitos americanos é a falta de sintonia entre a classe política e a massa de cidadãos. Algumas notícias sobre a paralisação do governo destacaram que pequenas empresas foram obrigadas a demitir funcionários ou não puderam pagar as contas por causa dos prejuízos econômicos. A coisa mais embaraçosa é que a paralisação impediu que o governo pagasse as pensões por morte às famílias de quatro soldados mortos no Afeganistão no início do mês. Obama teve de sancionar uma lei especial para garantir esses benefícios. 

Enquanto isso, uma parte da imprensa parecia ansiosa em demonstrar que o Obamacare era um fracasso, antes mesmo que tivesse tido a chance de ser plenamente implementado e avaliado. Ainda que a maioria republicana na Câmara dos Deputados tenha o direito constitucional – aliás, uma obrigação - de controlar o poder do Executivo, ela levou desnecessariamente o planeta todo à beira de uma crise financeira.

Por outro lado, Obama parece tripudiar desnecessariamente sobre os republicanos com suas vitórias. Recentemente, a aprovação do presidente caiu para 42%, enquanto a do Congresso chegou a apenas 13%. Não pude deixar de me lembrar da eloquente expressão brasileira “uma palhaçada” para descrever o que aconteceu em Washington.

A grave pergunta que se destaca na crise é: para onde vai a liderança dos EUA? Comentaristas de variadas linhas políticas disseram-se saudosos da era Reagan, quando, embora adversários, democratas e republicanos colaboraram frequentemente para buscar a solução dos problemas.

Terminei minha mensagem ao presidente Boehner com um simples pedido – com o qual acredito que a maioria dos americanos concordaria e esperaria de todos os líderes: “Por favor, faça o possível para que todos os americanos desfrutem de um melhor sistema de saúde, e crie um diálogo nacional mais produtivo”.

 

KENNETH SERBIN É DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DE UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO. FOI HOMENAGEADO COM O TÍTULO DE ‘PERSONALIDADE DO ANO DE 2011’ CONCEDIDO PELA ASSOCIAÇÃO AMERICANA DA DOENÇA DE HUNTINGTON

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