Palma de Ouro vai para filme tailandês

Apichatpong Weerasethakul recebeu o prêmio por Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2010 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / CANNES

Foi tudo muito bonito e emocionante. A vitória do filme tailandês Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives, literalmente Tio Boonmee Que Consegue Se Lembrar de Suas Vidas Passadas, foi o triunfo do cinema de autor, celebrado pelo presidente do júri do Festival de Cannes deste ano, o cineasta americano Tim Burton.

Na coletiva de apresentação do júri, integrado, entre outros, pelo diretor espanhol Victor Erice, pelo ator Benicio Del Toro e pelas atrizes Kate Beckinsale e Vittoria Mezzogiorno, ele já afirmara seu compromisso com a diversidade, dizendo que queria ser surpreendido pelo cinema não hollywoodiano. Burton colocou-se à frente dos próprios críticos, que premiaram um filme meio autoral, meio comercial - Tournée, de Mathieu Amalric. Sua escolha foi por um dos filmes mais radicais desta edição.

O vencedor, Apíchatpong Weerasethakul, declarou-se não apenas feliz e honrado com a Palma, mas também disse esperar que ela seja um elemento de pacificação em seu país, dividido por conflitos políticos. Seu desejo de paz tem a ver com a ideia do filme, que trata de reencarnação. Apichatpong não fez um discurso propriamente político de agradecimento, mas ele encarou o assunto na coletiva. É que a política dera o tom da cerimônia.

Logo na abertura, a apresentadora Kristion Scott Thomas apontou para a poltrona vazia de Jafar Panahi e lembrou que o diretor iraniano, preso em seu país sem acusação formal, completou ontem nove dias de greve de fome. Ela acrescentou que Steven Spielberg ligou para se solidarizar com os esforços para libertar o autor de O Círculo.

Juliette Binoche, vencedora do prêmio de melhor atriz por Copie Conbforme, de Abbas Kiarostami - de quem Panahi foi assistente -, levantou um cartaz com o nome do cineasta.

O ator italiano Elio Germano dividiu o prêmio de interpretação masculina com o espanhol Javier Bardem, de Biutiful, de Alejandro González-Iñárritu. Germano ganhou seu prêmio por La Nostra Vita, de Daniele Luchetti. Enquanto Bardem dedicava seu prêmio a Penélope Cruz - ela ficou meio sem graça quando ele a chamou de "mi amor, mi vida" -, Germano bateu forte na classe dirigente italiana. Dedicou o prêmio à Itália e aos italianos, que lutam por uma vida melhor, "de nossos governantes".

Um Homme Qui Crie, de Mahamast-Saleh Haroun, ganhou o prêmio do júri. O grande prêmio ficou com o francês Dês Hommes et Des Dieux, de Xavier Beauvois, e o prêmio de mise-em-scène (direção) com Mathieu Amalric, de Tournée. O prêmio de roteiro foi para o chinês Lee Chang-dong de Poetry

Diretor estreante. O júri acertou bastante, mas errou ao ignorar o filme mais forte da seleção, o russo My Joy, do ucranianio Sergei Loznitsa. Por mais qualidades que tenha o mexicano Año Bisiesto, de Michael Rowe, o júri deveria ter outorgado a Caméra d"Or (melhor filme de diretor estreante), a My Joy. Aí, sim, se poderia dizer que os melhores ganharam em Cannes.

Protesto

JULIETTE BINOCHE

ATRIZ

''É insustentável que Jafar (Panahi) esteja preso por suas ideias. Um país precisa de seus artistas, de seus intelectuais, e o Irã precisa dele. A crítica faz parte do processo de autoconhecimento.''

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