Palmo a palmo, queijo a queijo

O reconhecimento dos produtos e produtores artesanais no Brasil é caminho sem volta. Pouco a pouco eles vêm vencendo barreiras legais e sanitárias. O principal obstáculo para os produtos de origem animal - como o queijo, derivado do leite - é o Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (Riispoa), uma lei de 1952 que ainda é o paradigma de atuação dos fiscais do Ministério da Agricultura. Mas se há pouco esse obstáculo era driblado pela clandestinidade - caminhões cheios de peças de queijo atravessando fronteiras na calada da noite para abastecer o ávido mercado paulista, por exemplo -, agora, aqui e ali, surgem normas específicas que dão estofo legal à produção e comércio de produtos tradicionais.

O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2013 | 02h15

Na semana passada, foi anunciada a inauguração de dois centros de maturação e certificação de queijos em Minas Gerais, que enfim permite sua circulação em território nacional. O Ministério da Agricultura reconhece que a inspeção regional feita no centro de maturação equivale à federal - que, amparada naquele Riispoa de 1952 voltado para a indústria, sempre foi intransigente com o modelo dos pequenos produtores e dificultava a obtenção do selo franqueador de fronteiras do Serviço de Inspeção Federal (SIF).

"Não tem jeito, é uma tendência que a inspeção regional seja equivalente à nacional. Afinal, se um queijo é legalizado em Minas, ou no Pará, por que faria mal ao consumidor carioca, ao paulista?", diz Guto Gouvêa, produtor de queijo do Marajó. Neste ano, o queijo de Guto foi certificado para circular no Pará. O produtor conseguiu o selo sem ter de usar leite pasteurizado, após demonstrar, via pesquisas e visitas técnicas, que o queijo que faz não é nocivo ao homem e atende aos padrões sanitários. "Tentei usar leite pasteurizado, e aí precisava de um coalho pronto. Saiu queijo, sim, mas não era do Marajó", conta.

Na cerimônia em que recebeu o selo de produto artesanal para o queijo do Marajó, entregou a representantes do Ministério da Agricultura um protocolo para o reconhecimento em nível federal da legalidade e adequação de seu produto. O protocolo foi elogiado por membros do ministério, que, no entanto, ainda não tem data prevista para a liberação do queijo marajoara. "Hoje é fato que a maioria dos técnicos da fiscalização é contra o reconhecimento de produtos artesanais. Já ouvi dizer que mais de 90% deles não apoiam a legalização. Na Europa também houve muita discussão, mas já é assim. Aqui vai ser também", projeta Guto.

Articulação. No plano nacional, os queijeiros artesanais têm trocado informações para poder finalmente vender à luz do dia. Em 2011, houve o primeiro encontro de produtores em Fortaleza e, este ano, em novembro, em Porto Alegre, será realizada a segunda edição do simpósio que congrega queijeiros das diversas regiões mineiras, além de Pernambuco, Santa Catarina e Pará, entre outros. O reconhecimento legal regional, a obtenção da Indicação Geográfica (que atesta a originalidade do produto, seu terroir) e a inscrição do modo de fazer como patrimônio imaterial pelo Iphan são as formas de avanço tático usadas pelos queijeiros para que possam enfim chegar às prateleiras, mesas e cozinhas de todo o Brasil, como aconteceu com os mineiros. Palmo a palmo, queijo a queijo, a oferta gastronômica brasileira está sendo alargada e as culturas tradicionais, preservadas.

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